segunda-feira, 6 de agosto de 2012

DESENHOS SECRETOS


O erotismo é o elemento mais evidente nos Desenhos Secretos de S. M. Eisenstein, mas por detrás desse erotismo parece esconder-se uma outra dimensão: o poder. Também a obra cinematográfica do cineasta russo vive destes jogos de sombras, provavelmente respigados no gosto pela cultura japonesa e fortemente influenciados pelas condicionantes políticas da época. Neste livro, publicado pela Quetzal em Setembro de 2003, recentemente adquirido ao preço de 5€ numa feira do livro, Jean-Claude Marcadé e Galia Ackerman apresentam-nos um Eisenstein muito mais humano do que aquele que os críticos de cinema geralmente endeusam. Nascido em Riga, a 23 de Janeiro de 1898, no seio de uma família burguesa desavinda, Eisenstein fez a sua formação em conformidade com as conveniências. Já na idade adulta, vemo-lo a curvar-se perante o poder em diversas ocasiões. À elasticidade do espírito parece corresponder uma elasticidade nas acções que obriga a certos esforços de compreensão, sobretudo se tivermos em conta o inventário de grandes almas intransigentes que acabaram fuziladas ou suicidadas pelas máquinas dos regimes tirânicos. Parece haver na vida de S. M. Eisenstein, como provavelmente haverá na vida de todos nós, mais ou menos vincadamente e salvaguardadas as (des)proporções do génio, uma simulação constante da verdade. A forma como procurou ludibriar a sua evidente condição homossexual é um bom exemplo, mas também os jogos de cintura que foi tentando manter com o poder político em favor de uma intenção criadora naturalmente megalómana. Digo naturalmente porque outra coisa não se exige aos génios. Ora, tudo isto me leva a pensar na utilidade do desequilíbrio. Muitos dos planos nos filmes de Eisenstein cativam-nos precisamente por esse desequilíbrio nas formas que transformam meros rostos humanos em hiperbólicas figurações da humanidade. É como se os olhos do criador, neste caso, amplificassem a realidade, lhe dessem bastante zoom, a ponto de tornarem absolutamente credível a face grotesca da verdade. Se repararmos, outra coisa não fizeram os grandes artistas. As suas criações tornam evidentes os podres, as rupturas, as fissuras, os traumas de um corpo, trazem à superfície de um rosto a matéria recalcada do inconsciente, revelam, dão a ver a matéria excrementícia sobre o que tudo cresce. Neste sentido, os desenhos de S. M. Eisenstein, até pelo carácter automático da sua produção, exprimem de um modo transparente a complexidade de um ser em estado de assumida expurgação (podia ter dito confissão, mas não o quis fazer para evitar equívocos de carácter religioso). O que os desenhos têm de grotesco e de surreal é bastante real, o que denotam de mítico e de folclórico é profundamente verdadeiro, o que transmitem de erótico é claramente sacrificial. Amor e Morte, como sempre, numa conjugação libertadora da singularidade de um indivíduo. O poder, a tal dimensão outra escondida por detrás do erotismo, reside precisamente neste ponto onde confluem as forças originais para gerar algo não necessariamente novo, mas singular. Irónico, pois, que se fale de «impotência sexual» quando se especula sobre a vida íntima do realizador soviético. Eu não vejo senão uma incomensurável potência sexual nas suas criações, a potência de quem sabe jogar o xadrez da intimidade expondo obsessões, paixões, inclinações sem o temor dos castrados. Mesmo quando o tema é a ausência de sexo nas figuras angelicais, o que ali parece mostrar-se é a comédia grotesca de uma cultura alicerçada na vergonha de si própria. Porque outra coisa não nos é dado ver na chamada cultura judaico-cristã senão essa vergonha de andar com as partes baixas a descoberto que impele para a mentira e para a hipocrisia, com a aprovação cretina de todos, a maioria dos cidadãos governados e governáveis. Não admira, pois claro, que o homem se tivesse apaixonado pela «vida primitiva e sensual dos Índios» aquando da passagem pelo México. Eles eram desequilibrados, como desequilibrada era a sua alma. No fundo, ela era um deles. Só teve o azar de nascer na Letónia.

2 comentários:

Virgínia Palma disse...

Interessante análise. Um espelho do que eu penso. Um dos livros que mais prazer me dá. Folhear. Parar. Mais umas páginas. Perder-me em pormenores. Existe um outro que sugiro que veja (caso queira): "Os sonhos de Fellini". A ligação é muito superior ao facto de serem dois realizadores.

hmbf disse...

agradeço a sugestão