terça-feira, 14 de agosto de 2012

MEDALHA DE OIRO

Camarada Van Zeller, fiquei hoje a saber que sou uma pessoa muito exigente. A revelação deixou-me, ao mesmo tempo e na mesma medida, orgulhoso e desiludido. Orgulhoso por julgar imprescindível ao progresso o elemento da exigência, desiludido por ter dado comigo a pensar deste modo. Afinal, que exigência haverá num desistente? Eu sou um pouco na vida como a velejadora Carolina Borges foi nas últimas olimpíadas, desisto ainda antes de ter começado. E nem sequer tenho por desculpa o mistério da gravidez.

Findos os Jogos, o que temos a constatar é a exuberância das cerimónias. A população da Serra Leoa deve ter adorado, pelo que não é de estranhar se viermos a encontrar alguns barcos com emigrantes clandestinos ao largo das ilhas britânicas. Também não duvido que a população da Eritreia tenha regozijado com a paz universal ali evocada e simbolicamente celebrada durante duas semanas. E sem querer parecer muito exigente, estou mesmo convencido de que as gentes da Somália podem considerar-se alimentadas (espiritualmente) com a implosão de virtudes que pudemos presenciar ao vivo, qual espectáculo de pirotecnia, nas encenações de paz, amor, alegria, fraternidade, solidariedade e etc levadas a cabo pelos bifes. Terá a Síria participado? Talvez no tiro ao alvo.

Portugal terminou os Jogos ao nível de potências desportivas emergentes como Marrocos e o Afeganistão, o que demonstra e prova ser justo o desporto. Fosse a cobrição, camarada Van Zeller, modalidade olímpica e teríamos arrecadado várias medalhas de oiro. Bastaria, para tal, termos destacado o nosso coelho, que fazendo justiça à sua leporídea natureza, anda a cobrir o número dois mesmo quando o número dois se priva de cobrir o número um. O calão, não só foi preguiçoso para os estudos como se mostra agora preguiçoso na arte da cobrição. Ou então estamos todos enganados, incluindo o professor Marcelo, e o segundo anda a cobrir 10 milhões de portugueses enquanto o primeiro patrocina a cobrição cobrindo-o a ele num promíscuo gang bang à portuguesa.

Pelo meio, vão desaparecendo documentos relativos a compras suspeitas. Sempre que me lembro de que fui multado por não terem considerado na minha declaração de rendimentos as facturas onde o meu nome não vinha discriminado, sinto-me um cobrido. Não sabe agora o Estado onde arruma os documentos dos submarinos que compra como se tivesse ido ali ao Mercado de Santana comprar um brinquedo. Ora porra, se calhar estou a ser muito exigente. Assim não chegarei a atleta olímpico.

Talvez me venha a safar, quem sabe, como se safaram os condenados do BPN. Levando pena máxima, que é como quem diz: acabando contratados como directores de fundos criados pelo Estado. Mas se calhar estou mesmo a ser muito exigente, o melhor é emigrar para o Níger ou para a República Centro-Africana ou para a Libéria ou para o Burundi ou para qualquer uma dessas milhentas nações no mundo onde a vida nunca mais será a mesma depois dos Jogos Olímpicos de Londres.

2 comentários:

alexandra g. disse...

Tão lindo, Henrique, c'um caraças, tá grávido again, praise whatever the shit you wanna name :)

hmbf disse...

ora, ora, isto é só um ser de 4 patas a fingir que ladra