domingo, 9 de março de 2014

[li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios]


li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Herberto Helder (n. 1930 - m. 2015), in A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita (2008). «Uma das mais perturbantes personalidades que entre nós passaram pelo surrealismo, com as suas relações herméticas, alquímicas ou mágicas, e também pela poesia experimental (...). Depois da estreia em publicações na sua Madeira natal, fez sair em Lisboa Amor em Visita, 1958 (...). Vale a pena registar desde já que vários textos mais conhecidos deste poeta reaparecem em diversos enquadramentos, nos quais parece assumir um papel, ou uma posição, sempre diferente, desde a sua estreia de 1952-58, em páginas de revistas ou suplementos do Funchal. Logo nos mencionados ciclos dos anos 1950, H. H. aparece já com uma voz inexcedível na poesia de amor, como se verifica pelos poemas afins de «Dai-me uma jovem mulher com a sua harpa de sombra», pelo ímpeto de uma força que se exprime nos mais inesperados campos semânticos - que se manterão, como a «alegria da morte», a fonte maternal, os violinos, a laranja, o ouro, e outros símbolos da tradição hermética, aliás ainda fortes, por corresponderem à análise pré-científica da realidade. Em 1961 e 1966 publica poemas tendentes a uma poesia experimental, que mais tarde renegará (como renegará o surrealismo), mas que se aproximam da suas tendências de lúdico metaforismo e interseccionismo já anteriores (...)». (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa)

2 comentários:

Rui Almeida disse...

Por q é q puseste a foto do Chanquete do Verão Azul?

hmbf disse...

Porque é mesmo parecido com o Herberto.