sexta-feira, 20 de junho de 2014

A INVENÇÃO DA LÍNGUA


(Sequência)

I

Aquele assombroso lugar
tomara o modo intranquilo da água
nenhuma caligrafia por essa impossibilidade retinha
a terra desconhecida que só me oferecia
uma voz

Um canto deve antecipar o mudo caminho
da mão
e a conduzir como a certo louco
que tornando-se inofensivo ao adormecer
da minha aldeia eu levava de regresso
a casa

Nessas deslocações descobri
a língua

II

Debaixo do véu não modifiques
as percepções antigas
sejam os enigmas quem adestra
suas próprias sequências

Se soubesses quanto a letra
faz morrer os punhos
na luz dividida onde se deslocam
é preciso temer esse avanço hábil

Esta noite ninguém te afaste
da escura intimidade de um corpo
nenhum ladrão te roube de Deus

III

Há um medo indispensável nas figurações
aqui alojadas
elas conhecem o transtorno
implícito à sua própria efabulação
o risco de uma natureza vacilante

mas arrebatadas servas se colocam
diante do anjo
para que seja a sua escura seta
quem desloca os sinais

IV

Os poderes do rito me esclareçam
sejam meus limites sob o seu direito
de ressoar isento o que não muda

Os sinais da necessidade
por mim não espero apagá-los
água nenhuma que lavasse meu rosto
o alterou

Dêem-me a glória das estações intermédias
sem a meteorológica apreensão que no corpo
vai acontecer o terrível

Recorda-te desta fala
pacto ainda sombrio
nomes que se dirigem a ninguém

José Tolentino Mendonça (n. 1965), in Longe Não Sabia (1997). «Ele sabe que um aquém, a linguagem, a poesia, podem ser um instrumento tanto de um mistério como de uma revelação. Um conjunto limitado de sons, de palavras, de conteúdos, de regras, de articulações pode levar-nos a uma vastidão. É por isso que sentimos, ao lê-la, que esta poesia quer ser um para além da poesia, mas sem abdicar, ao mesmo tempo, de um aquém que é a presença do mundo, das pessoas, dos que procuram escutar. Assim ficamos disponibilizados para uma multiplicidade de verosimilhanças, de interpretações que nunca nos definirá os princípios de experiência ou de sinceridade do autor, mas também nunca nos impedirá os mecanismos de confessionalidade, artificiosa, de limites interpretativos que o autor deixa suspensos na sua elaboração retórica e prosódica» (Joaquim Manuel Magalhães, in Rima Pobre).

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