domingo, 26 de outubro de 2014

SUICIDAS DO BURUNDI


A Ática vai publicar um livro intitulado Suicidas. Por razões óbvias, o tema interessa-me. Conferir aqui. A pouca originalidade do título não me afastará desta Antologia de Escritores Suicidas Portugueses, nem o prefácio de Valter Hugo Mãe (suponho que já se escreva com maiúsculas). O autor da antologia é Pablo Javier Pérez López, Doutor em Filosofia na Universidade de Valladolid. Também esse facto não será impeditivo. Só a nota de apresentação pode, de algum modo, provocar-me hesitações. Diz-se que a antologia contém textos de Antero, Florbela, Camilo, Manuel Laranjeira, Mário de Sá-Carneiro e Barão de Teive. Terão ficado de fora outros, tais como Eduardo Guerra Carneiro ou Guilherme de Faria ou Cristóvam Pavia? Não é grave. O que enjoa é o discurso generalizador:
 
Nos suicidas portugueses encontramos a Nostalgia, a Saudade, quer dizer, “a dor da proximidade do longínquo”, a profunda experiência da loucura, a profunda experiência do amor, a profunda experiência da ausência, a profunda experiência da morte e, por tudo isso, a profunda, incarnada e experiência trágica da vida e portanto da literatura em que a paixão e o padecimento e o mistério da verdade se tornam indistinguíveis e por vezes insuportáveis.
 
Com tanta profundidade, podemos desconfiar ser esta uma antologia de mineiros. Não é.  Mas a primeira questão que cabe colocar é: qual a diferença entre os suicidas portugueses e os de outras partes do mundo? O que tantas vezes enfatizamos neste tema não passa de rasteira da sensibilidade. Tendemos a julgar profundo, na personalidade dos outros, o que na realidade se revela até bastante superficial. Deverei lembrar casos onde a decisão pela morte nada teve de trágico? Mais uma vez, incorremos no risco evitável de confundir a experiência trágica da vida com a experiência cómica da literatura. Esta é sempre uma construção sobre a outra, e não tem que reflectir de modo mais ou menos confessional, as dores, as frustrações, as náuseas da existenz. O fado é das canções, a saudade nunca foi exclusivo nosso. Perguntem aos habitantes do Burundi. Mais espantoso é que tanto escritor profundamente deprimente não se mate, levando até vidas, pelo menos na aparência, ligeiras de riso e alegria imensa. Talvez isso merecesse um estudo académico, talvez merecesse uma enciclopédia.

p.s.: podendo parecer que não, terá tudo que ver com isto.

2 comentários:

Rui Almeida disse...

Talvez a grande homenagem a Unamuno, fosse alguém, de preferência espanhol, acabar com o dogma forjado a partir do título do seu livro. Até porque esse "dogma" é tão insultuoso como revelador de q dessa obra apenas foi lida a capa.

hmbf disse...

tiraste-me as palavras do bolso