sexta-feira, 7 de novembro de 2014

MANCÚSPIAS, CRONÓPIOS, FAMAS E ESPERANÇAS

Nascido por acaso em Bruxelas, onde o pai se encontrava a trabalhar, Julio Cortázar (1914-1984) pisou terras argentinas já com quatro anos feitos. Cresceu nos subúrbios de Buenos Aires, tendo sido abandonado pelo pai aos seis anos. O desaparecimento súbito da figura paterna encontrará várias explicações, sendo certo que a família sobreviveu à custa do trabalho da mãe, do dinheiro de uma avó e de um fundo de aposentadorias. Conta-se que ao ter conhecimento da morte do pai no interior da Argentina, Cortázar terá demovido a mãe de aceitar a herança a que tinha direito: uma pensão e fazendas. Os estudos permitiram-lhe começar a trabalhar cedo, como professor, nas cidades de Bolívar, Chivilcoy e Mendoza. Trabalhou ainda como editor, tradutor e colaborou no argumento de um filme sobre o qual não reza a história. Os primeiros livros, uma colecção de poemas intitulada Presencía (1938) e o poema dramático Los Reyes (1949), foram publicações humildes de circulação restrita. 1951 será o ano da edição de Bestiário. Coincide com a partida do escritor para Paris, onde se fixará e virá a adquirir cidadania francesa. No Bestiário encontramos aquele que foi o primeiro conto publicado por Cortázar: Casa Ocupada. O episódio da publicação foi descrito por Jorge Luis Borges (1899-1986) e merece ser recordado:

Em mil novecentos e quarenta e tantos, eu era secretário de redacção de uma revista literária [Los anales de Buenos Aires], mais ou menos secreta. Certa tarde, uma tarde como tantas outras, um rapaz muito alto, cujos traços não consigo recuperar, trouxe-me um conto manuscrito. Disse-lhe que voltasse dali a dez dias e que lhe daria o meu parecer. Voltou dali a uma semana. Disse-lhe que o seu conto me agradava e que já tinha sido entregue na tipografia. Pouco depois, Julio Cortázar leu em letras de imprensa «Casa Ocupada» com duas ilustrações a lápis de Norah Borges. Passaram-se os anos e ele confiou-me uma noite, em Paris, que aquela fora a sua primeira publicação. Honra-me ter sido o seu instrumento.


Casa Ocupada é boa introdução ao universo cortazariano, com suas figuras fantasmagóricas povoando as memórias de um espaço e influindo em situações cujos tempos são indetermináveis. Mas os contos de Bestiário introduzem-nos, igualmente, noutras dimensões da obra do autor de Rayuela (1963) que serão posteriormente desenvolvidas até à exaustão. Neles deparamos com seres fantásticos tais como as mancúspias, alucinações produzidas por obsessões inexplicáveis (o jaguar do conto que ofereceu o título ao livro), porventura projecções de conteúdos provenientes do inconsciente. A face surrealista desta obra torna-se evidente, mas não esgota o sentido da mesma. Do mesmo modo, o absurdo não é o aspecto mais determinante nos livros de Cortázar. É inegável a importância do absurdo, o carácter subversivo e inventivo, o humor negro da escola surrealista, mas todos esses elementos parecem conjugar-se sob o tecto de uma interrogação acerca dos limites da linguagem na sua relação com o real.
 Histórias de Cronópios e de Famas (1962), um dos mais populares livros de Cortázar, radicaliza a dimensão absurda das suas histórias. Porém, encontramos nesses relatos que subvertem o quotidiano, sabotam a normalidade, renegam perspectivas unilaterais sobre a vida comum, buscam o caos que se esconde nas sombras da verdade, encontramos nesses relatos uma interrogação sobre o papel da linguagem que se manifesta tanto em experimentações sintácticas, onde o dizer procura adequar-se às surpresas do real, como numa muito objectiva tomada de posição sobre o aspecto labiríntico de uma narrativa (recorde-se que a figura do Minotauro no labirinto é uma das que primeiramente interessa ao escritor). Neste sentido, o texto inicial do famoso Manual de Instruções (uma das quatro partes que compõem as Histórias de Cronópios e de Famas) funciona como uma espécie de “arte narrativa”:


Ter de ganhar o dia-a-dia todos os dias, esbracejar num mundo pegajoso, ter de acordar todas as manhãs num repugnante cubículo, e satisfeito que nem um cão por tudo estar nos seus lugares: a mesmíssima mulher, os sapatos de sempre, o eterno sabor da eterna pasta dentífrica, a mesma tristeza das casas fronteiras, a suja tabuleta com o letreiro HOTEL DE BELGIQUE.
Enfiar a cabeça como um touro vencido pela multidão transparente em cujo centro tomamos o café com leite e folheamos o jornal para saber o que aconteceu num ponto qualquer do globo. Não consentir que o acto delicado de girar o trinco da porta, acto que tudo poderia modificar, se cumpra com a fria eficácia de um reflexo quotidiano. Até logo, querida. Passa bem.
Apertar uma colher na mão e sentir o seu gemido de metal, a sua advertência suspeita. Dói negar uma colher, negar uma porta, negar tudo o que o hábito seduz com suavidade satisfatória. É tão mais simples aceitar a solicitude fácil da colher, usá-la para mexer o café.
E não há nada de mal em que as coisas nos não vejam mudar.
Que ao nosso lado esteja sempre a mesma mulher, o mesmo relógio e que o livro aberto sobre a mesa de cabeceira recomece a andar na bicicleta dos nossos óculos, por que haveria isso de ser mau? Mas há que baixar a cabeça como um touro triste e empurrar para longe o centro do globo de cristal, até outro tão perto de nós, inacessível como o picador tão perto do touro. Forçar os olhos para o que no céu aceita teimosamente o nome de nuvem, sua réplica catalogada na memória. Não penses que o telefone te irá dar o número que procuras. Por que razão to daria? Somente o que já tens preparado e pronto, o triste reflexo da tua esperança, esse macaco que se coça à mesa e treme de frio, chegará aos teus ouvidos. Escavada a cabeça a esse macaco, vai contra as paredes, rebenta-as. Alguém que canta no andar de cima! Nesta casa há um andar de cima, com outras pessoas! Um andar de cima onde vivem pessoas que nem imaginam o andar de baixo, e cá estamos todos na bola de cristal. E se de repente uma traça aparece na ponta de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olha-a, a essa traça que vive na bola de cristal frio, nada está perdido. Ao abrir a porta, ao chegar à escada, saberei que a rua está já ali em baixo; não o molde imposto, não as casas conhecidas, não o hotel em frente: a rua, floresta viva onde cada instante pode invadir-me como uma magnólia, onde as caras começam quando as olho, quando avanço, quando com os cotovelos, pestanas e unhas me atiro minuciosamente contra a massa da bola de cristal, e arrisco a vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal à esquina.

Sendo certo que estes contos emanam por vezes coincidências entre o ambiente arquitectado e os aspectos biográficos conhecidos do autor - «Há anos que trabalho na Unesco e outros organismos internacionais e ainda conservo algum sentido de humor…», diz no conto Possibilidades da Abstracção -, não menos certa é parecerem construídos no interior de uma vertigem sugerida pela relação entre o sujeito que observa e o objecto observado. Permito-me sublinhar do texto supracitado a oposição entre o quotidiano banal e os efeitos surpreendentes obtidos pela recusa dessa banalidade. Sentir o gemido do metal da colher é olhar a colher já de uma outra forma, é apreendê-la de um modo incomum, é aceitar que uma colher não é apenas uma colher nem apenas uma colher cabe num nome, é perspectivar o mundo aceitando na sua lógica interna o caos que nos ameaça, é aceitar uma realidade que escapa à nossa necessidade corrente de formatar, organizar, explicar, compreender, é ver para lá do visível partindo do princípio que aquilo que não vemos, o fruto da imaginação, é inerente ao que sentimos: logo existe com a mesma força do que vemos. Borges dizia ainda:

As personagens da fábula são deliberadamente triviais. Rege-os uma rotina de amores casuais e de discórdias casuais. Movem-se entre coisas triviais: marcas de cigarro, montras, balcões, uísque, farmácias, aeroportos e cais. Resignam-se aos jornais e à rádio. A topografia corresponde a Buenos Aires ou a Paris e podemos acreditar a princípio que se trata de meras crónicas. Pouco a pouco sentimos que não é assim. Muito subtilmente o narrador atraiu-nos para o seu terrível mundo, em que a felicidade é impossível. É um mundo poroso, em que se entretecem os seres; a consciência de um homem pode entrar na de um animal ou a de um animal num homem. Também se joga com a matéria de que somos feitos, o tempo. Nalguns contos fluem e confundem-se duas séries temporais.

Não concordando necessariamente com o juízo moral, parece-me certa a leitura do processo. No entanto, ao atrair-nos para o seu mundo o narrador alerta-nos sobre novas possibilidades acerca do nosso próprio mundo. De facto, não coexistimos em mundos diversos. Partilhamos o mundo da linguagem. E se o meu mundo é a minha linguagem, ou vice-versa, então, mais uma vez, estamos na presença de um esforço de reconstrução da realidade que só pode transcender as convenções do discurso. O fantástico, em Cortázar, não se opõe ao real, ele é a própria realidade. Assim devemos aceitá-lo se o pretendemos entender. A colectânea As Armas Secretas (1959), sobre a qual escrevi este texto, é das primeiras onde as séries temporais se confundem com especial interesse. O conto Cartas da Mamã é disso extraordinário exemplo. Mas mais do que a confusão de tempos e de espaços geográficos, o que me parece agora importante sublinhar é o swing dos textos, o ritmo que as palavras incutem às imagens e que estas percutem nas situações convocadas. Improviso? Talvez, como improvisar é frasear entre riffs meticulosamente construídos. Note-se como da trivialidade de que fala Borges a personagem central de As Armas Secretas consegue concluir a excepcionalidade de tudo e o absurdo que rege as coisas, sonho de desejos obscuros que pululam na mente e se projectam nas acções de um modo mais ou menos fiscalizado. Concluamos:

Agora vou pensar em ti, querida, apenas em ti, durante toda a noite. Vou pensar apenas em ti, é a única forma de me sentir a mim mesmo, ter-te no centro de mim mesmo como uma árvore, soltar-me, pouco a pouco, do tronco que me sustém e me guia, pairar à tua volta, com cuidado, sondando o ar com cada folha (verdes, verdes, eu mesmo e tu mesma, tronco de seiva e folhas verdes: verdes, verdes), sem me afastar de ti, sem deixar que o outro se intrometa entre tu e eu, me distraia de ti, me prive nem que seja por um segundo, que esta noite está a girar até ao amanhecer e que lá, do outro lado, onde vives e dormes, será outra vez de noite quando chegarmos juntos e entrarmos em tua casa, quando subirmos os degraus do alpendre, acendermos as luzes, faremos festas ao teu cão, beberemos café, fitar-nos-emos durante algum tempo, antes que eu te abrace (ter-te no centro de mim mesmo com o uma árvore) e te leve até às escadas (mas não há nenhuma bola de vidro) e começamos a subir, a subir, a porta está fechada, mas tenho a chave no bolso…

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