terça-feira, 13 de janeiro de 2015

MERCADO DAS EMOÇÕES

 
Quantas pessoas conheciam em Portugal o Charlie Hebdo? Quantas, das que agora apontam o dedo à blasfémia praticada pelo jornal satírico, já tinham ouvido falar do Charlie Hebdo? Quantas alguma vez terão tido nas mãos um número do Charlie Hebdo? Eu nunca tive. E se o visse nas bancas, não compraria. Nunca na vida me recordo de ter comprado um jornal satírico. Nem sequer sou especial fã de cartunes, também raramente leio banda desenhada. Irrita, porém, deparar com tanta gente dedicada à denúncia e à crítica do malogrado jornal.
Os argumentos são dos mais rebuscados, vão desde a constatação de uma implicação sistemática com o islamismo a acusações de islamofobia, esgaravatam o passado do jornal com acusações de práticas pouco democráticas no seio da redacção, para não falar da banaldiade “estavam a pedi-las”. As pessoas confundem tudo. A qualidade do jornal não interessa para nada neste contexto.
Imaginemos a inversa. Imaginemos que era um jornal de fundamentalistas islâmicos a ser atacado por um grupo de católicos radicais. Imaginemos que Anders Behring Breivik tinha, por absurdo, encontrado uma ilha onde estavam acampados alguns jovens fundamentalistas islâmicos e desatava a disparar sobre tudo e todos. Seria na mesma um acto terrorista bárbaro, indecente, indesculpável, injustificável.
Por mais voltas que se dê a esta questão, não está em causa o que as vítimas fizeram em vida. O que deve merecer o nosso repúdio é que alguém se julgue no direito de acabar com vidas humanas desta forma, seja em Paris, Utøya, Nova Iorque, Chibok, Madrid, Kobani, Londres ou Gaza.
Através de comentários que entretanto me pediram para não publicar, chego também a este texto assinado por António Barahona. É um texto muito bonito, tão bonito que podia ter sido escrito por um qualquer católico ortodoxo. Na Rússia, Putin pensa como Barahona. É por isso que quer proibir propaganda homossexual. Cada qual com os seus deuses, obviamente. Mas é também um texto que satiriza os meus sentimentos mais profundos, não me deixando, contudo, com a mínima vontade de disparar um tiro nas fuças do seu autor.
Assim sendo, a nossa liberdade de expressão termina onde começa o ridículo das religiões. Melhor: podemos expressar-nos livremente excepto para pôr a ridículo a religião. Para a fogueira com o Anticristo de Nietzsche e com o Elogio da Loucura de Erasmo e com a Utopia de Thomas More… A sátira não pode ser aplicada à religião, defende o eminente poeta no alto da sua sabedoria. Pobres de nós, os infiéis e ateus, que a todo o momento somos satirizados pelas religiões.
Há mais de três séculos a arder no Inferno, Gregório de Matos foi um lacaio do diabo. Goethe, à sua maneira, foi outro lacaio do diabo. Ou então estamos todos errados e o alvo destas sátiras não eram as religiões elas mesmas mas o entendimento que delas é feito pelos homens, por certos homens. Por exemplo, por homens como o soldado da paz na imagem ao alto. Satirizam-se padres, bispos, cristos. Satirizam-se, imagine-se, políticos. Satirizam-se homens e mulheres, mas não toquemos nos sentimentos mais íntimos e sagrados de milhões de crentes.
Podemos tocar nos sentimentos mais ou menos íntimos? E se forem sentimentos de milhares de crentes? Podemos satirizar a IURD? E a seita Heaven’s Gate, podemos satirizar? E, já agora, essa religião do povo, esse ópio que dá pelo nome de futebol, podemos satirizar? Ou também aí não devemos tocar nos sentimentos mais íntimos e sagrados dos crentes?
Os indivíduos a quem Barahona chama guerreiros e mártires, esses e os do Boko Haram que andam a raptar crianças e a matar milhares de infiéis, esses e os do ISIS que decapitam os ímpios de Kobani, esses e os que se projectam contra altas torres no centro de Nova Iorque ou se fazem explodir na Tchetchénia, esses e o tal guerreiro da paz na foto ao alto, têm mais direito a rir do que eu? São íntimas as minhas convicções ateias, tão íntimas que vão resistindo como o mais resistente dos materiais a toda a gargalhada sagrada que as anedotas satíricas da Bíblia, do Alcorão, da Torá, do Livro dos Mortos, do Bhagavad-Guitá, dos Upanishads, têm para arremessar contra a minha consciência.
Eu, desgraçado cidadão português de mãos em concha, que em pleno século XXI e depois de um dia de trabalho ainda tenho que aturar a blasfémia de um texto onde a voz do muezzin se assemelha ao riso das hienas no mercado das emoções.

9 comentários:

Jorge Melícias disse...

É inacreditável a quantidade e o calibre das barbaridades que alguém, supostamente informado, consegue debitar num texto. Num outro qualquer seriam "boutades" inconsequentes, neste senhor as coisas ganham contornos diferentes. Ou não, que o direito à inimputabilidade ele veio buscar ao ocidente que agora quer civilizar. A nós, perante casos assim, resta-nos o múnus da condescendência.

Mas, pelo sim, pelo não, eu,
em relação à "minha liberdade vigiada", não deixo as barbas dele de molho.

hmbf disse...

Um texto destes na Arábia Saudita dava direito a umas centenas de chibatadas.

A VIDA NUMA GOA disse...

Excelente. Usando expressão corrente aqui no Brasil :: "tamo junto".

Cuca, a Pirata disse...

Isto é mais ou menos como os pirómanos e as notícias sobre os incêndios que ateiam. O melhor é nem sequer lhes dar palco.

A VIDA NUMA GOA disse...

http://avidanumagoa.blogspot.com.br/2015/01/para-resolver-questao-do.html

Manuela disse...

Tenho ali uns livros que comprei do Sr. António Barahona, todavia agora só me ocorre:

BENJAMIN PÉRET

"Ó grande espírito santo da merda
virgem enrabada em todos os altares
o meu pichel transborda de água benta
Embebe nela o pissalho antes de mo enterrares
Conas de nenúfar crescem nos benzedoiros
Vá vai apalpá-las antes de me enrabares
Cristo não tinha picha o infeliz
e por isso o cricificaram
Corre ó esporra em nossa matriz"

"Os Tomates Enlatados", Antígona.

Marina Tadeu disse...

(...) e num último sopro de vida, o tio do homem-aranha sussurrou:

"Não há liberdade sem autoridade, nem autoridade sem liberdade."

hmbf disse...

Manuela, belo naco de poesia.

Anónimo disse...

Ora aí está, um belo naco de poesia satírio. Com esse poema e a declaração de princípios do outro blogue, se eu fosse cristão, já teria um belo motivo para metralhar esse frívolo poeta. E eram bem dadas.