sexta-feira, 29 de maio de 2015

CORDA DE SEGURANÇA

   A edição da revista Colóquio Artes (n.º 83 Dezembro de 1989), publicada após as exposições retrospectivas de Paula Rego, em 1988, na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa), na Casa de Serralves (Porto), e na  Serpentine Gallery (Londres), é especialmente dedicada à artista e reúne dois ensaios cruciais para o contexto que aqui estamos a analisar. Um desses ensaios intitula-se simplesmente "Paula Rego" e é da autoria de John McEwen, que, como ficou já claro, é uma figura fundamental no cerne desta rede luso-britânica de relações profissionais e afectivas e que, significativamente, foi apresentado à artista por Alberto de Lacerda.
   No texto acima mencionado, McEwen comenta a pintura de Rego "A Dança" (1988), referindo que foi o último tema sugerido pelo marido Vic Willing (que morreu nesse mesmo ano), uma "pintura elegíaca", como diz McEwen, evocativa do seu Portugal nativo, evidenciando alegoricamente todo o processo de crescimento e maturidade da própria artista - através das figuras da menina, da jovem mulher e da mulher idosa a dançarem juntas - e da sua estreita relação com Vic Willing, representada através do idílico casal a dançar:

   Numa pista de dança iluminada, com vista para um mar iluminado pela lua, os casais dançam ao som da música. Esta costa marítima tem a fúria da costa perto da Ericeira. (...) O tom é esmagadoramente elegíaco; e, no entanto, o reconhecimento do fim das coisas é temperado pela gratidão da aceitação e pela esperança do amor. No tema das relações misteriosas e muitas vezes antagónicas entre homens e mulheres, abordadas tão profundamente por Paula Rego em toda a sua arte, (...) aqui fica o testemunho do persistente poder do amor.

   Num tom próximo, a composição "Partida", também de 1988, foi dedicada pela artista a Vic Willing como um carinhoso gesto de despedida. A pintura mostra uma jovem, de avental branco, entregue à tarefa de pentear (amorosamente) o cabelo de um homem jovem, num terraço à beira-mar, salientando-se em primeiro plano um grande baú, pousado no chão, como se pronto para uma viagem iminente.
   Tragicamente, esta foi uma das pinturas que ficou destruída no incêndio de um dos armazéns da Galeria Saatchi, em Londres, em Maio de 2004; uma das perdas que Rego mais profundamente lamenta.

Ana Gabriela Macedo, in Paula Rego e o Poder da Visão, Edições Cotovia, Outubro de 2010, pp. 157-158.

   Partida e A Dança foram pintadas quase em conjunto, a primeira mesmo antes da exposição da Serpentine e a última imediatamente depois. Na primeira obra, uma rapariga cuida da toilete de um homem que a vai deixar. Embora vestida como criada, a atitude que toma em relação ao homem não é de subserviência. Lembra-nos isso sim uma das meninas de Paula Rego com o seu cão; o homem é o seu animal de estimação, o seu bebé e o seu amante. Uma corrente eléctrica parece passar através do pente que os liga e é também o símbolo da sua iminente separação. A energia e atenção da rapariga estão centradas no homem, enquanto que ele olha para além do quadro, pronto para sair. A partida dele, imaginamos, deixá-la-á sem nada para fazer.

Fiona Bradley, in Paula Rego, Quetzal Editores, s/t, s/d, pp. 38-40.


A Dança foi concebida durante um longo período de tempo e existe uma sequência completa de desenhos, muitos dos quais a artista doou à Tate Gallery quando a pintura foi adquirida para a colecção da Galeria.

   Estes desenhos foram feitos quando andava à procura da última obra para a exposição da Serpentine. Era para ter sido a obra que ligaria tudo, pendurada por cima de tudo o resto. Mas não a acabei a tempo e ainda bem, na verdade, pois acabou por ser demasiado grande para caber na galeria. O Vic tinha dito para fazer pessoas a dançar, por isso foi daí que surgiu o tema, mas depois ficou tudo baralhado quando ele morreu e os desenhos para a obra ajudaram-me a aguentar um período de sofrimento e privação intensos. O desenho consegue isso - ajudar-nos a aguentar as coisas. É como numa antiga anedota portuguesa em que um homem está em cima de uma escada, a pintar uma parede com um grande pincel. Aparece outro homem que quer a escada, por isso diz para o primeiro «Segura-te bem ao pincel, vou só levar a escada...» É isto que o desenho é - agarra-nos, liga-nos tão intensamente ao papel, através do lápis ou da pena ou do que quer que seja que utilizemos, que é como se fosse uma corda de segurança quanto tudo o resto desaparece. As cosias podem correr mal, mas se nos agarrarmos com força ao papel e à caneta, tudo ficará bem.

Fiona Bradley, in Paula Rego, Quetzal Editores, s/t, s/d, p. 42. Sublinhados meus.

2 comentários:

Carlos Azevedo disse...

«A Dança» é talvez a minha pintura preferida de Paula Rego. Durante anos, trabalhei com uma cópia à minha frente. Quando era necessário, ajudava-me a viajar para um sítio muito distante daquele em que me encontrava.
Quanto ao último sublinhado, todos temos que ter algo (seja lá o que for) a que nos agarrarmos quando as coisas correm mal.

hmbf disse...

Não consigo ter uma pintura preferida de Paula Rego. Estas duas obras são excelentes e complementam-se. Entretanto, os cães...