sexta-feira, 13 de novembro de 2015

ANTICOMUNISMO PRIMAVERIL



Não é para qualquer um assumir-se anti o que quer que seja. Ser-se anti não é apenas assumir-se uma posição contrária a, é ser-se pela negação do objecto que se despreza, é colocar-se numa posição de cegueira e de ódio. A ser anti qualquer coisa, eu seria, desde logo, antianti. Mas sem ponta de cinismo posso afirmar que sou anti-racismo, antimachismo, sou anti-homofobia. Pouco mais. Até a estupidez eu consigo admirar em certas circunstâncias, e frequentemente me rio de certas misérias alheias. São poucas as coisas no mundo, sobretudo as humanas, que me merecem desprezo. Adoptei o espírito do romântico e idealista Novalis. No mundo das ideias, aceito tudo e o seu contrário. Os opostos desafiam-me, não me inspiram ódios. As antinomias, os maniqueísmos, estimulam-me. De que me vale ser anti-nazismo? Não sou. O nazismo existe, tento compreendê-lo, esforço-me por estudá-lo para poder contradizê-lo. Não o aceito, mas não lhe tenho ódio precisamente para que nada de mim se possa rever nessa abjecta ideologia.
Clara Ferreira Alves, a dias de lançar o seu primeiro e mitologicamente aguardado romance na Fundação José Saramago, repito, na Fundação José Saramago, resolveu declarar-se anticomunista. Se eu fosse do tipo escorpião, diria que Clara se colocou ao nível de um José Rodrigues dos Santos. Ou seja, em vésperas de livro novo adianta uma polémica qualquer para dar nas vistas. Os editores dizem que ajuda às vendas. Dar nas vistas ajuda às vendas. Acontece que eu sou mesmo escorpião, mas não julgo ter sido essa a intenção daquela a quem Vasco Pulido Valente em tempos chamou santanete. O resto do perfil mantém-se disponível aqui. Na realidade, eu sou mesmo do tipo escorpião. Mas julgo que Clara Ferreira Alves se colocou antes ao nível de um 2.º Conde de Guedes, mais popularmente conhecido por António de Sousa Lara, o ex-Subsecretário de Estado da Cultura que conseguiu com o seu anticomunismo primário impelir para fora do país José Saramago. Repito, José Saramago: escritor, comunista, único Nobel da Literatura português, que ofereceu o nome à Fundação onde a anticomunista primaveril Clara vai lançar o seu aguardado (pelos amigos) romance.
O mais palerma da anacrónica crónica não é a declaração de princípio, nem a reflexão “existencial” (?) — por certo mais ao estilo de Camus do que de Sartre —, nem o delírio teológico. A autora está no direito de se declarar o que bem entender que nós não temos nada que ver com isso. Sucede que Clara Ferreira Alves não leu o programa do PCP que eu li, não leu aquele artigo 22.º sobre os benefícios da crítica e da autocrítica (devia), não leu absolutamente nada sobre o que no programa está escrito acerca de matéria económica — Um desenvolvimento económico assente numa economia mista, dinâmica, liberta do domínio dos monopólios, ao serviço do povo e do país —, são tão facciosas e preconceituosas as suas afirmações que nos é impossível entendê-las senão aceitando a total ignorância de quem as profere. Enfim, podia até não perder tempo com leituras que porventura considerará fastidiosas. Bastaria perguntar aos seus amigos comunistas, por certo todos eles muito boas pessoas (não por serem comunistas, mas por serem seus amigos).
Ao dizer que é anticomunista e que tem e teve amigos comunistas, Clara Ferreira Alves lembra-me o tipo que não é racista, mas odeia ciganos, a tipa que não é homofóbica porque até tem amigos gays. Presume-se a fadiga da escritora, labutou imenso nos últimos anos para poder dar à luz o oneroso romance que lhe pesava sobre os ombros. Desenterra patéticas notas biográficas para justificar a formação do seu ódio, vindo de um tempo em que, enfim, ninguém poderia como a Clara o fez agora publicar uma crónica com o título “Antifascista, obrigado!”. E se o pode, muito o deve à luta dos comunistas portugueses que sacrificaram as suas vidas, repito, as suas vidas, por um país livre. É que uma coisa é dar o peito às balas, sacrificar a vida, sair da zona de conforto, outra coisa é andar atrás do prejuízo e outra ainda, bem diferente, é a gente adaptar-se à situação em função das circunstâncias enquanto brincamos à política em Associações de Estudantes. A isso chama-se oportunismo, o qual anda sempre de mão dada com o ilogismo.
Repare-se nos chavões utilizados por Clara Ferreira Alves para formular a sua história vivida (à distância) do país. Quem não era pelos comunistas era contra os comunistas, frase feita para denotar um maniqueísmo que, afinal, é precisamente do mesmo tipo daquele em que a autora do artigo se coloca. Só não entendo por que motivo não caiu o país numa guerra civil?! Deve ter sido por mero acaso. Enfim, o que ela crítica nos comunistas, partindo de pressupostos subjectivos, acaba por ser o norte da sua pragmática declaração: sou anticomunista. Podem ser contra mim, claro, mas ou são anticomunistas ou não são democratas. Patarata. Pior ainda quando omite por completo «que ao lento e duríssimo processo da democratização de Portugal» teve atrás de si 40 anos de ditadura fascista, não começou nem se encerrou no PREC, esse terrífico período que Vítor Silva Tavares, por certo bem mais embrenhado nele do que a Clara, sintetizou eloquentemente deste modo:

Mortos, que tivesse sido apenas um já seria demais - é o meu bom coração a manifestar-se. Mas foram poucos, português suavemente poucos, para tão vergônteo estardalhaço «revolucionário», tanta espingarda distribuída, diz-se, por tanta mão solícita. Fogos da reacção, lá para as bandas da Maria da Fonte - alguns, uma caquinha ao pé dos de hoje, climatéricos. Cabeças rachadas, luxações, entorses - avonde. Cargas policiais em reivindicativos exaltados (fascismo, nunca mais) - qb. Assassinatos políticos - a direita encarregou-se. Cercos ao Parlamento, ao Palácio de Belém, ao Palácio de Cristal, ao jornal República do dinheiro da social-democracia alemã - um dó li tá. Mas quem viu têvê, ouviu gralhas radiofónicas ou leu os jornais de então (como pode ler agora os apanhados retrospectivos) é de pôr os cabelos em pé, ai jesus santa maria santíssima: rios de sangue nas calçadas, turbas a incendiar igrejas e a violar as servas e servos do senhor, homens de leis e proprietários varados à metralhadora, campónios a esventrar agrários honestos, generais a deixar crescer patilhas, pobrezinhos a salvaguardar pratas da família no aeroporto da Portela aguardando exílios em goulagues distantes, mulherame de mau porte a exibir descaros mamários, pilhagens, assaltos à mão armada, fuzilamentos, criancinhas espavoridas, ó mãe, ó maãe. Como na Revolução Francesa, que também «caiu na rua», o Terror alastrou de norte a sul, cabecinhas ao cesto. Traduza-se: torrentes da primavera, inflamações retóricas, zaragatas inflacionadas pela rapaziada merdiática à espera de melhores empregos, de mais lustrosas escravaturas voluntárias. Excessiva quando muito só a esperança de alguns ostensivos relapsos ao oportunismo furta-cores num Portugal-outro, numa terra de gente até que enfim à altura de ser livre e solidária. Apesar do som e da fúria, o impulso disparado nas várias frentes do «processo revolucionário» não passou de assim assim. A mim não se me dava que tivesse havido mais. E por muita verborreia que me fure os tímpanos sobre o advento de uma outra ditadura, dita «social-fascista», acontece que não sou daqueles que engravidam de orelha. Capítulo ditaduras, que dizer do império do betão, da praga do automóvel, da parafernália de tralhas «indispensáveis» (incluindo as «culturais»), da futebulite epidémica, da anestesia geral televisiva, da espionagem vigilante para minha «segurança», do medo instalado nos locais de trabalho, do massacre publicitário do «admirável mundo novo» virtual e da partidocracia metastizante que reduz o Estado a uma tribo de empregados de escritório ao serviço da «Economia»? Que dizer, afinal, da ditadura sem rosto visível que nos enleia com «liberdades», «cidadanias», «desenvolvimentos», «modernidades», «desafios», mas que a todos toma por gado imbecilizado? Domesticada embora, ou se quisermos silenciada pela incontinência verbal virada para o interior do vazio, a indignação hiberna sob um céu de chumbo.

Clara Ferreira Alves sabe o que o doutro Cunhal queria fazer, está absolutamente certa de intenções e de processos de intenção jamais confirmados, Clara Ferreira Alves vaticina, adivinha, é uma espécie de Maya, de Maria Helena, tem lá os seus anjinhos com quem fala sobre estas coisas e sobre os segredos de Fátima, ela chega ao futuro por A + B fugindo do presente e fintando o passado. Tem pinta. Lamento apenas não poder ir à Tate Modern para confirmar as razões de Clara. É de facto uma chatice Portugal não estar representado por lhe ter faltado a anarquia pop, o protesto pop, a arte pop. Cinzento país, que de pop só mesmo o detergente. Este país é, de facto, uma tristeza de modernistas e de presencistas e de neo-realistas e de surrealistas e de palermistas com fartura. Afirmar que «devemos isto ao PCP e à hegemonia do PCP num país pequeno e sem mercado de ideias, vinculado ao Estado e aos ditames e subsídios e cargos do Estado» é a prova disso mesmo, na medida em que se atribui ao PCP um poder que, por certo, gostaria de ter mas, infelizmente, nunca almejou porque, et voilà, sempre respeitou a vontade popular expressa nas urnas de voto. Não foi assim? Não é assim?
Lê-se com espanto, a boa crónica, quando o tema é cultura. Lê-se com pena, a boa crónica, quando o tema é política. Pena da ignorância e do preconceito, espanto do absurdo. Clara Ferreira Alves tem da cultura portuguesa a perspectiva do constitucionalista. É tudo prémios e prebendas, é tudo régua e esquadro, é tudo História da Literatura e currículo escolar, é tudo escolástico. Não se distancia nem um milímetro do chamado cânone, de facto muito pantanoso (embora não se veja como por culpa do PCP, esse devorador de criancinhas e, pelo visto, de intelectuais). Clara ignora o “underground” português porque ele nunca ascendeu nem quis ascender aos salões onde a Clara bebe o sumo de laranja natural e come o rissol no decorrer da vernissage. Bastaria ter tido em conta, para não ir mais longe, os catálogos da Afrodite ou da &etc para ficar com uma perspectiva um pouco mais abrangente da cultura portuguesa (em sentido lato). A panorâmica por certo se alteraria, quisesse o preconceito fazer o esforço. Mas não quer. Finda a leitura, aguardemos pacientemente o novo capítulo anunciado: «o PCP sempre foi ferozmente antigay. Só se mudaram. Já lá iremos». Ainda não foi, mas há-de ir se Deus quiser. Assim tenha saúde e o Senhor a proteja dos comunistas. Não agradeça.

4 comentários:

Manuela Fialho disse...

Brilhante!
Beijo
MF

hmbf disse...

Saúde,
(e paciência)
:-)

Ivo disse...

Onde posso ler o original da citação do Vitor Silva Tavares?

hmbf disse...

Deixei há tempos o texto integral aqui:

http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2015/09/jornal-para-ler-e-nao-para-olhar.html