sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O MEDO

Publicado originalmente em 1982, quando José Martins Garcia (n. 1941 – m. 2002) vivia nos EUA como professor visitante da Brown University (Providence), O Medo é uma novela onde se olha retrospectivamente um Portugal algures entalado entre a herança do regime fascista e as ilusões desfeitas pelo chamado Verão Quente. O texto foi, porém, trancado por uma data que nos indica o local e o dia em que terá sido dado por findo: Lisboa, 25 de Abril de 1979. Portanto, na ressaca da dita Revolução dos Cravos, imerso numa sociedade perdida entre os tiques do antigo regime e a ignorância da democracia. Temos, deste modo, dois planos de acção, com características muito próprias, a entrecruzarem-se ao longo da narrativa. No primeiro, a personagem central anda pelos quase vinte anos e encontra-se em Angra do Heroísmo. Estamos na década de 1960, o medo impõe-se pela desconfiança que os homens sentem uns relativamente aos outros, travados pela observação bufa de um regime castrador, o qual faz assentar os seus métodos numa sociedade ameaçada pela letargia, pela incapacidade de agir, pela pose curvada e reverente às instituições dominadoras, sejam elas o Estado e seus séquitos ou a Igreja e seus acólitos. No segundo plano de acção, a personagem central anda pelos quarenta anos de idade. Estamos a entrar na década de 1980 em plena capital do país, com incursões esporádicas por outras cidades de uma sociedade arrastada pela convulsão política. É o tempo das utopias e das ilusões, dos movimentos políticos, da luta partidária, de uma descarada inaptidão para essa coisa nova que dá pelo nome de democracia. Em suma, «tempo de ladrões e revolucionários» (p. 23). O desencanto é evidente, a revolução rapidamente se transforma numa replicação dos vícios humanos quando a olhamos a partir das pessoas, a revolução não chegou às pessoas, parece ter encontrado nelas a rocha que impede o mar de invadir a terra. Resultado: quem acreditava ser possível um país novo rapidamente cede a um cansaço interior que prova continuar tudo velho, ainda que agora se chame intolerância ao que dantes era censura. O medo persiste como uma espécie de vírus de que o sangue não se liberta, não é expurgante para vírus tão poderoso e antigo, tão histórico que parece confundir-se com o próprio sangue, vírus essencial, genético: «Rolam argumentos, à falta de cabeças. Os argumentos passarão como espuma, as cabeças ficarão na medida da prudência tradicional. Poderia ficar a noite inteira a exibir motivos de sincera renúncia, a debitar a bílis de que as traições me vão carregando. Mas, se calhar, não me habita sequer a bílis desses desregramentos. Se calhar, mato em mim todo o ressentimento devido à convicção profunda do ridículo envolvente. Poderia igualmente remexer na história deste país, gastar saliva e massa cinzenta — inutilmente, claro está! — na detecção deste ar podre, em vigor desde o século XVI, talvez antes: esta espécie de caruncho, este masoquismo de corrupção, este medo que passeou pelas fogueiras, porque neste país não se mata nem se morre na luta, queima-se o herege num cenário confortável, a encenação possível dentro do mau gosto histórico, estrafega-se o herege num palco rudimentar bem protegido pelas forças de segurança, pois se as não houvesse ali bem cobardes e impunes os carrascos começariam ao primeiro cagaço a dar vivas aos hereges e a soprar arrotos arrependidos contra o rei, o papa, a ausência que des-responsabiliza e instaura a sublimação dos canalhas…» (pp. 52-53) A citação mais longa justifica-se por nela ser perceptível o medo de que estamos a falar, um medo anterior à morte que se declara medo de viver, de agir e actuar em liberdade, exigindo ao indivíduo a tomada do destino nas suas próprias mãos, o medo das expectativas que obstaculiza a acção e torna o indivíduo inoperante, reduzindo-o de pessoa única e singular a rolamento na engrenagem de um todo onde se subsumem individualidade, liberdade, responsabilidade. Este é o medo que nos tem levado a esperar dos outros e pelos outros o que não poderá ser conquistado senão por nós próprios, um medo de actuar nas circunstâncias sem calculismos nem cautelas face a efeitos e consequências indesejáveis, o medo de simplesmente dizer não à catana que abre mato para o desfile de canalhas, escória, escroques e filhos da puta que sempre chegam ao poder de braço dado com o medo, apoiados, protegidos, escudados por partidos, clubes, seitas, sociedades secretas mais ou menos discretas. A este medo não chegou a revolução, entre Angra e Lisboa ele mantém-se o lugar-comum que apenas alguns anti-heróis logram desmentir, porque este é o medo que independentemente do tempo e do lugar impede a pessoa de ser ela própria, levando-a a submeter-se a um colectivo castrador que a faz sentir-se acautelada de potenciais ameaças. Mas que pior ameaça pode uma vida sentir do que a impossibilidade de se cumprir enquanto vida? Não será o medo de viver mais nefasto para a própria vida do que o medo de morrer? 


Nota: outras entradas neste weblog com referências a José Martins Garcia: um excerto de Alecrim, Alecrim, aos Molhos... (aqui), leitura de Lugar de Massacre (aqui).

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