sexta-feira, 4 de novembro de 2016

AS ALMAS

Que lugar para Teixeira de Pascoaes no mundo actual? Directamente saídos de cursos de humanidades, os poetas deste tempo que é o nosso mal saberão distinguir o orvalho da neblina. Como poderão compreender Pascoaes? Encafuados em apartamentos, fazendo pela vida uns sobre os outros, é mais o tempo que ocupam de soirée em soirée do que a caminhar entre serras e vales. O niilismo pós-guerra, a tensão pré-milenar, a secularização progressiva do pensamento, materializada na virtualização do real que as redes sociais promovem, não é ambiente propício ao transcendentalismo de uma poesia que tem na sua relação directa com a Natureza um foco primordial. Nenhum dos nossos poetas fez mais programa da Natura do que Teixeira de Pascoaes, observando-a e interrogando-a para nela descobrir uma vida à nossa imagem e semelhança, para através dela ascender a um plano etéreo, místico, onde todas as coisas se reúnem num sentido cosmogónico universal. As rochas respiram na poesia de Teixeira de Pascoaes, a luz do sol é sangue que vivifica outeiros, rios, bosques, animais, o vento tem uma voz que cabe ao poeta decifrar.  Que sentido pode isto fazer para quem nasce, cresce e vive em cidades movidas pela ambição e desprovidas de terra?

AS ALMAS


Vejo passar, na infinda solidão,
Vultos de almas, figuras de emoção;
Os poetas do silêncio que não cantam,
Os doidos que, de súbito, se espantam,
Os que gelam, ao ver o luar nascente,
Os que fitam a mesma estrela, eternamente;
Os perdidos da sorte,
Os que chamam, gritando, pela morte!
Os que andam, sem saber, pelos caminhos,
Os que de noite vão, sempre a falar, sozinhos;
Os que vivem casados com a dor
E a escondem, ciumentos;
Os trágicos do Amor,
Os que sentem astrais deslumbramentos,
Os que matam e cantam, por destino;
O salteador nocturno, o poeta que é divino.
Os tristes vagabundos,
Em perpétua e fantástica viagem...
Os que amam a paisagem
E têm nos olhos a amplidão dos mundos...
Vultos de almas, figuras de emoção,
Errantes, na infinita solidão.


Teixeira de Pascoaes, in Vida Etérea, 1906.

3 comentários:

Ricardo António Alves disse...

Excelente pergunta, Henrique. E, paradoxalmente, talvez nunca como agora esta poesia faça tanto sentido, quando estamos a chegar ao paroxismo da (in)civilização, que se fazia já sentir ao tempo do próprio Pascoais.

hmbf disse...

Sim, encontro-lhe muito sentido nos dias que correm.

Claudia Sousa Dias disse...

Gosto muito.