Era para escrever sobre o Dia dos Namorados, coito
interrompido pela falta de. Nunca tive namorada, nunca namorei, casei-me logo e
divorciei-me no mesmo dia e voltei a casar-me com a mulher que deixei viúva e aqui estamos unidos para a morte. Lembrei-me, no
entanto, de quando éramos jovens e gostávamos de música e líamos o Blitz. Só
permanece a melomania. Guerras entre metálicos e curistas, nós sem coutada a
desesperarmos por algo que oferecesse sentido à depressão. Veio com o grunge, chegou
com o trip-hop, acercou-se com a neo-country e congéneres. Coleccionei pilhas
de edições do Blitz. Queimei tudo, não sei por quê. Inclinação doukhobor. Também
perdi noites sintonizado na MTV, a ouvir a Polly Jean e os sons oriundos da
Bélgica no caudal de dEUS. Já viram no que se transformou a MTV? Há dias,
passei por lá e vi um tipo a explodir bombinhas de Carnaval enfiadas no cu.
Lembrei-me dos putos no Nine ½ Weeks a tocar uns quaisquer primeiros acordes,
salvo erro, de Beethoven. O mundo transformou-se numa piada de mau gosto que o
Blitz não quis desrespeitar. De vez em quando recebo publicidade com teaseres
de bradar aos céus: homem faz várias cirurgias plásticas para ficar parecido
com Britney Spears, que música ouvem os consumidores de pornografia? Tudo isto
tem que ver com música, claro, tal como as indumentárias escolhidas a dedo para
exibir na cerimónia dos Grammy Awards. Tudo isto terá mais interesse, desconfio, do
que a música produzida por aquela gente tão tecnicamente problemática. Ouvia ontem o Júlio Isidro e a Fátima Campos Ferreira dizerem, na RTP Memória, que
hoje é preciso muita coragem para se ser jornalista. Desconfio que no passado
tenha sido preciso coragem, hoje parece-me que um estômago resiliente é mais
adequado às circunstâncias. Ia escrever sobre o dia dos namorados. Fica para a
próxima.
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