quinta-feira, 13 de julho de 2017

POEMAS QUOTIDIANOS

Numerados de 1 a 100, os Poemas Quotidianos de António Reis (n. 1927 – m. 1991) foram escritos entre 1952 e 1962. É um período marcante na história da poesia portuguesa, nomeadamente por nele encontrarmos os ecos do chamado presencismo, ou da segunda vaga do modernismo, afrouxando face à imposição do neo-realismo e subsequentes respostas vanguardistas dos movimentos surrealista e experimental. Reis não foi poeta de um só livro, mas acabou por submeter parte da obra ao olvido em prol de um conjunto de versos que quis serem os seus. Assim sendo, os Poemas Quotidianos são o livro de António Reis. Seria pouco dizer que em boa hora as Edições Tinta-da-china o recuperaram, pois é da mais elementar justiça que o tenham feito. As palavras de Manuel António Pina na cinta que acompanha esta edição são clarificadoras da influência que estes poemas terão exercido, ainda que essa influência não seja declarada ou assumida como facilmente seria tivesse este pequeno grande livro o reconhecimento que merece. Acompanhados de um prefácio de Fernando J.B. Martinho e de um posfácio do realizador Joaquim Sapinho, ex-aluno de António Reis na Escola de Cinema do Conservatório, estes versos poderão agora chegar a um público que por certo se espantará com a mestria do seu autor.
   O primeiro sublinhado vai para o estado de depuração alcançado em cada poema, numa redução do máximo ao mínimo, muito à maneira do que encontramos em Carlos de Oliveira, com quem António Reis mantém relações de proximidade a um certo neo-realismo, não o da cartilha politicamente engajada, mas o de um humanismo proveniente das vivências subjectivas observadas ao lado de quem sofre e não do alto de uma torre de vigia. Nessa depuração, que por vezes também lembra a forma concisa do poema japonês, António Reis conquista para cada palavra o vigor do essencial. Daí que na sua poesia palavras como solidão, saudade, amor, piedade, desespero, não indiciem apenas estados de alma passageiros, mas encontrem uma expressão que as eleva à condição de matriz num tempo que supera as fronteiras do concreto, do tempo histórico, do tempo epocal e sociológico.
   Nestes poemas, essas palavras-chave penetram uma dimensão universal que lhes torna possível chegarem-nos hoje com o mesmo fulgor que tinham à partida, pois apesar de sabermos da “feira cabisbaixa” (O’Neill) em que surgiram, envoltas num manto de tédio, de tristeza e de pobreza, é do mesmo tipo a tristeza e o tédio quotidianos que a liberdade democrática destes nossos dias imprime no coração daqueles que não se conformam com uma vida reduzida à arte de produzir para satisfazer os apetites de consumo. Independentemente da realidade social, o realismo aqui em causa é das emoções que configuram o humano a partir do seu ramerrão doméstico e comezinho. Ou, como afirma Martinho no prefácio: «A conformada resignação dominante é, uma vez por outra, interrompida, e então surge a indignação, a acusação» (p. 13), denotando um olhar inconformado com a situação em que se encontra.
   Os Poemas Quotidianos não só captam o ar dos tempos, olhando pela janela as ruas da cidade, como são eles mesmos parte integrante desse estado de sobrevivência: «Poemas quotidianos // como o sol / como a noite // como a vontade de comer / e o sono // como as preocupações / e o amor // e porque saio à rua / e trabalho / diàriamente» (p. 27). A Clara a que se dirigem já não é apenas a musa inspiradora do nefelibata, é uma cúmplice da melancolia por detrás dos olhos do rapaz que observa os barcos, cúmplice dos domingos de espera, da nostalgia, da saudade. É também um resquício de beleza que mantém o ar respirável, um resquício de beleza ante a ira dos impotentes, dos cobardes, dos traidores, um resquício de beleza que nos envia para o lugar mais íntimo do amor: «Sei que choras / muitas vezes / sòzinha // e que lavas / o rosto // (ah onde / ando eu) // para a tua dor / não ser minha» (p. 84).
   Não nos inibamos de sublinhar o acontecimento editorial que é a recuperação desta obra de um poeta que também foi cineasta, de um cineasta que nunca deixou de ser poeta, apesar de, parafraseando Joaquim Sapinho, o seu cinema não continuar a sua poesia. «É outra forma de dor» (p. 122). Contudo, em parte a sua poesia anteviu o seu cinema. «Hei-de entrar nas casas», lemos no início de dois poemas deste belíssimo conjunto de 100. E entrou por portas diversas, provando mais uma vez que não é necessário muito palavreado para dizer o fundamental. Bastam as palavras certas. O labor de António Reis como poeta é o dessa busca ao encontro de uma precisão sem dúvida alcançada, capaz de dizer tanto com tão pouco:

23

Eu não voo
ando

quero que me oiçam

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