quinta-feira, 20 de julho de 2017

RACISMO EM PORTUGAL

   De quando em vez vem à baila o tema do racismo. Será Portugal um país racista? Mas que raio de dúvida! Claro que é. Quem souber de um país que tenha sido colonizador e não seja racista, atire a primeira pedra. Mas o que é um país racista? A segregação racial, que até há muito pouco tempo era uma realidade portuguesa, desapareceu (a social ainda é). Nos Estados Unidos da América, esse país da Estátua da Liberdade, foi lei. Bob Dylan canta sobre o assunto. Fizemos fortuna no tráfico de escravos, ora. Isso passou? Mais ou menos. As leis domesticaram-nos a maldade, fomos obrigados a baixar a bolinha. Portugueses emigrados em países como a Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Polónia, queixam-se do racismo desses países. Ainda há tempos, um tipo que conheço de uma transportadora tentou fazer vida no Luxemburgo. Veio de lá a bufar cobras e lagartos contra o racismo dos cabrões. De novo instalado ao volante do seu TIR, sente-se à vontade para dizer que não gosta de pretos. Só de pretas. E ri. Ciganos, nem vê-los. Nem ciganas. 
   Não sei se quem por aqui passa estará recordado deste post sobre um cigano que andava à procura de trabalho e foi baleado por um agente da PSP: «Foi alvejado por um agente da PSP que depois de o atingir na cara, levando-lhe parte da dentadura, rematou o gesto com a seguinte sentença: “Tenho um ódio aos ciganos, e à vossa raça, que se pudesse matava-os a todos”. O Tribunal de Beja condenou o agente com uma pena suspensa de um ano e três meses de prisão». Pena suspensa, como no caso dos trafulhas da Universidade Independente. Os ciganos são vítimas especiais do nosso racismo, do nosso e do resto do mundo. Vivem lá na deles e a malta não gosta, quer os ciganos civilizados. Como quis os índios até dar cabo deles. Sim, claro que somos racistas. Até porque somos do mais parvo que possa haver. Homo Sacer e os Ciganos, de Roswitha Scholz, seria leitura recomendável por estes dias. 
   Infelizmente, não tenho amigos do peito que sejam pretos. Nem ciganos. Só conhecidos e vizinhos. Gostava de ter amigos pretos e amigos ciganos para poder dizer que não sou racista, assim como um gajo que é amigo de paneleiros diz que não é homofóbico. Dá sempre jeito ter amigos das minorias por perto, para credibilizarem uma pessoa. O mais que tive foi one-night stand com uma mulata. E toda a vida vivi junto de ciganos. Brinquei na infância com ciganos, cresci a ver o meu pai fazer negócio com ciganos (vendia-lhes monos que eles depois revendiam nas feiras), moro junto a um bairro que é por aqui conhecido como Bairro dos Ciganos. Infelizmente, nunca tive problemas. Gostava de ter tido, para poder despejar o meu ódio nessas raças imundas. Mas nunca tive. Como é que Camões de referia aos indianos? 
   As únicas vezes que fui assaltado foi por gajos brancos, um deles até bastante loiro. Foi no Bairro Alto. Comprei droga algumas vezes, mas sempre a filhos de boas famílias. Alguns com negócios abertos insuspeitos numa sociedade que acolhe sempre bem os seus filhos mais produtivos. Tenho tido azar na vida, sempre que sou enganado, ludibriado, roubado, sempre que me vão ao bolso, sempre que fui traído, foi por tipos decentes. Alguns até bastante católicos. Pelo menos fizeram o crisma e vão à missa. Num país com tantos trafulhas à solta, não deixa de ser admirável que as pessoas continuem a destilar os seu ódios sobre minorias. Há razões objectivas para que assim seja, claro. Desde logo, serem minorias. Depois, no caso dos ciganos, são quase por regra uma minoria desprotegida pela baixa escolaridade. Um burro adora dar coices noutro burro. Um tipo com o 12.º sente-se um doutor ou um engenheiro quando dispara contra "a ciganagem que mal sabe ler e escrever". Esta altivez dos burgessos é coisa muito nossa, da qual não nos livraremos assim tão facilmente. 
   Os meus amigos sabem que se há tema que me leva aos arames é o do racismo, sobretudo contra ciganos. Estes estão em todos os meus livros por razões de afecto e de admiração que não cabe aqui esclarecer. Prefiro partilhar um conto que publiquei num pequeno volume intitulado Call Center (Companhia das Ilhas, Junho de 2014), na esperança de que possam encomendá-lo (é mentira, já não tenho esperança alguma):

ÁRABE

   Um árabe foi assassinado no meu bairro. Alguém desconfiou dos ciganos. Sempre que algo inusitado acontece no meu bairro, alguém desconfia dos ciganos. E sempre que alguém desconfia dos ciganos, todas as suspeitas recaem sobre os ciganos. Sucede que o árabe assassinado era cigano. Na perspectiva dos ciganos, este pormenor excluía-os do grupo dos principais suspeitos. Por outro lado, na perspectiva dos restantes moradores, era precisamente este pormenor que mais contribuía para a desconfiança recaída sobre os ciganos. Toda a gente sabe de variadíssimas histórias de retaliações familiares entre a comunidade cigana, diziam os restantes moradores. Histórias que não são um atributo exclusivo desta etnia mas nela se revelam muito mais frequentes, explicavam os especialistas. À excepção dos guineenses, rematavam os restantes moradores.
   No decorrer das investigações, foi claro que as suspeitas dos investigadores se inclinavam para a versão dos restantes moradores. Curiosamente, um desses moradores era guineense. Precisamente o mesmo que reparou no facto do detective responsável pela investigação ser, ele próprio, de etnia cigana. Isto gerou algum burburinho junto da comunidade. Se por um lado não podiam os ciganos queixar-se de discriminação racial, por outro lado também não podiam os restantes moradores garantir a imparcialidade nas investigações.
   As pessoas começaram a discutir a pertinência daquela opção. Gerou-se um grande debate nacional em torno do tema, com entrevistas para as televisões, artigos de opinião publicados nos jornais, pareceres em linha aberta nas rádios de todo o páis, programas em directo com vários convidados. Foram criadas associações de defesa de diversos pontos de vista, conforme estes fossem a favor ou contra o que quer que fosse na questão em debate, inclusivamente a existência de pontos de vista. O tema, que ficou por encontrar a luz amena de uma solução, ainda hoje é motivo de inflamadas discussões.
   Quanto ao árabe assassinado no meu bairro, posso garantir que era de etnia cigana. E que foi assassinado no meu bairro.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Call Center, com ilustração de Bárbara Fonseca, Junho de 2014, pp. 17-18.

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