quarta-feira, 13 de setembro de 2017

CONFISSÕES DE JEAN-JACQUES ROUSSEAU




   Um dos desafios colocados ao leitor por obras tais como as Confissões, de Jean-Jacques Rousseau (n. 1712 – m. 1778), é o de a todo o momento termos de manter certa desconfiança para com o autor, não tomando como verdade absoluta e definitiva a palavra de quem se confessa. Há uma intenção neste tipo de escritos que a tal obriga, nomeadamente a defesa de si mesmo levada a cabo por quem escreve e lega à posteridade uma perspectiva pessoal e subjectiva, defendendo-se de quem e do que a ele se tenha oposto em vida, uma defesa em nome de uma verdade, não necessariamente da verdade. Jorge de Sena, no prefácio à edição portuguesa com o selo da Relógio d’Água (1988), doze livros distribuídos por dois volumes concluídos com um proveitoso sumário, alerta-nos para os factos sob a forma de interrogações: «Foi Rousseau sincero nas Confissões? A sua sinceridade é fingida? É impossível a sinceridade que ele buscou? A divisão, em que ele culminou, para autojustificar-se, entre Rousseau e Jean-Jacques, não será o símbolo de que a sinceridade é dupla e dúplice, conforme é literária ou humana?» Por vezes contraditório, outras vezes ambíguo, aqui e acolá lacónico, Rousseau fez a sua defesa, porque disso se trata, não no plano da verosimilhança ou da veracidade, não no plano da autenticidade ou da sinceridade, mas antes no plano da retórica, procurando convencer os seus leitores da boa vontade que o terá guiado em vida, contra as acusações de misantropia, de arrogância, de ateísmo, de cólera, de desonestidade, entre outras que o atingiram. No que coincidem réu e acusação, podemos estar certos de que o autor de Confissões foi uma das mentes mais brilhantes do seu tempo. E não foram poucas as que nos ficaram do séc. XVIII. 
   A vantagem de Rousseau sobre os demais são as curiosidades biográficas, os dilemas e certas opções, notas que conferem à sua história um interesse de tipo cinematográfico. Porventura estaremos no campo do caricato, da menos interessante das dimensões num Autor deste calibre, embora a vivacidade com que legou à posteridade este auto-retrato possível nos leve a crer em fundamentos para o pensamento cuja ligação à vida vivida, à existência e à experiência, terá sido determinante. Natural de Genebra, não chegou a conhecer a mãe. Faleceu esta na sequência do parto. «A minha infância não foi a de uma criança; senti, pensei sempre como um homem. Foi só quando cresci que entrei na classe ordinária; ao nascer, tinha dela saído. Rir-se-ão de me verem modestamente apresentar-me como um prodígio. Pois sim: mas quando se fartarem de rir, achem uma criança que, aos seis anos, se prenda, interesse e entusiasme por romances a ponto de se desfazer em lágrimas com eles; então, sentirei a minha vaidade ridícula, e convirei que ando mal» (Vol I, pp. 72-73). Mas não eram apenas os romances que entusiasmavam Rousseau. O amor à Natureza, a inclinação para o isolamento, os passeios solitários, ficaram-lhe da infância para a vida. Sobre eles escreveu páginas imprescindíveis, na decorrência deles chegou a notáveis conclusões: «Geralmente, os protestantes são mais instruídos do que os católicos. Deve sê-lo assim: a doutrina de uns exige a discussão, a dos outros, a submissão» (Vol I. p. 75). E o autor de Emília experimentou ambas as doutrinas, com conversões e reconversões ao longo da vida que lhe valeram fatais acusações de ambivalência religiosa. 
   Entre os episódios mais caricatos destas memórias, conta-se a aventura ingénua, embora picante, com certo mouro em contexto de seminário. A sexualidade chegou-lhe pelas mãos da pederastia, ao que parece velha tradição católica longe de ter sido ultrapassada. Curiosamente, não serão muitas as mulheres na vida de Rousseau. Françoise-Louise de Warens, a quem chamará de mamã toda a vida, preencherá o lugar deixado vago pela mãe natural, numa confusão de paixões e de amor fraternal dificilmente destrinçável. Foi o sustento do jovem e intrépido compositor e filósofo durante largos períodos de autêntica vagabundagem. Com a singela Thérèse Levasseur casou e teve os filhos que entregou na Roda, mas nas Confissões fica claro que o coração se lhe atracou noutros portos. Sophie d'Houdetot terá sido o amor falhado para a vida que o filósofo guardou no coração. Não obstante, é impressionante que apesar da cultura tenha mantido a mulher analfabeta, se tenha escusado à educação dos filhos contra o que o próprio deixou escrito em relevantes ensaios, optando por uma solidão e por um recolhimento que poderiam ser confundidos com egoísmo não fossem os sinais de altruísmo e de generosidade deixados noutros contextos. 
   O que parece ser inquestionável é o ódio aos salões que a determinada altura o assaltou, o gosto pela vagabundagem e o culto da solidão, afastando-o de amigos como Denis Diderot (n. 1713 – m. 1784), provocando a desconfiança de homens como Jean le Rond d’Alembert (n. 1717 – m. 1783), altercando com grandes vultos seus contemporâneos tais como Voltaire (n. 1694 –m. 1778), fomentando ódios, intrigas e querelas entre as quais a mantida com o barão Friedrich Melchior von Grimm (n. 1723 – m. 1807) foi a mais acesa e nefasta. Se o objecto das Confissões é dar a conhecer o íntimo de um homem, elas acabam por nos dar igualmente uma paisagem dos tempos a partir da crítica de um olhar: «Estava tão farto de salões, de repuxos, de bosquezinhos, de canteiros, assim como das mais aborrecidas pessoas que mostram tudo isto; estava tão cansado de folhetos, de cravos, de «tris», de nozinhos, de tolos ditos de espírito, de insulsas denguices, de pequenas frioleiras e de grandes ceias, que quando deitava o rabo do olho para uma simples e pobre moita de espinheiros, uma sebe, uma granja, um prado; quando, ao atravessar um povoado, aspirava os vapores de uma boa omeleta com cerefólio; quando ouvia ao longe o rústico refrão da canção das rendeiras, mandava ao diabo o vermelhão, e os folhos, e o âmbar, e chorando o jantar caseiro e o vinho da região, de boa vontade teria ido ao focinho do Sr. Chefe e do Sr. Mordomo que me faziam jantar às horas a que ceio, cear às horas a que quero dormir; mas sobretudo ao dos Srs. Criados, que com os olhos devoravam o que tinha no prato, e, sob pena de morrerem de sede, me vendiam o vinho avariado dos patrões dez vezes mais caro que o melhor que poderia pagar na taberna» (Vol II. P. 133). 
   De saúde fragilizada por uma nefrite, incapaz já de voltar a sentir amor, distanciado das elites aquando do sucesso, acusado de misantropia, perdido num labirinto de correspondência onde o pedantismo, o arrivismo, a falsidade, a arrogância são sempre fortes ameaças à verdade, odiado pelas teses defendidas no Discurso Sobre a Desigualdade, tanto quanto a aristocracia pode odiar a quem a pretenda destronar, perseguido por Jesuítas, jansenistas, filósofos, Rousseau viu os escritos serem-lhe queimados na fogueira. O filósofo inglês David Hume (n. 1711 – m. 1776) foi uma amizade improvável já nos últimos anos de vida. Verdadeiras ou pretensiosas, as Confissões de Jean-Jacques Rousseau legam-nos uma sabedoria que transcende as memórias de um homem. São, à sua maneira, uma obra de filosofia da qual podemos reter, nas entrelinhas ou com clarividência metódica, ensinamentos eternos: «Compreendo como os habitantes das cidades, vendo apenas paredes, ruas, e crimes, têm pouca fé; mas não compreendo como a não podem ter os camponeses, e sobretudo os solitários. Como é que a sua alma se não eleva extasiadamente cem vezes por dia ao autor das maravilhas que os impressionam? Por mim, é sobretudo quando me levanto, abatido pelas insónias, que, graças a um longo hábito, sou levado a estas elevações do coração, que não impõem a fadiga de pensar. Mas para isso é preciso que os meus olhos se impressionem com o arrebatador espectáculo da natureza. No meu quarto, oro mais raramente e com mais secura: à vista, porém, de uma bela paisagem, sinto-me comovido, sem saber dizer porquê» (Vol II. P. 346). Tradução de Fernando Lopes Graça. 

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