quinta-feira, 7 de setembro de 2017

DA CULTURA (ALGUNS TÓPICOS)

Ensinam-nos na escola que a cultura é o conjunto de valores materiais e imateriais que caracterizam uma sociedade, mas nada nos dizem sobre crise de valores.
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As crises não são necessariamente negativas, podem ser momentos de transformação. Os valores não são estátuas de mármore, nem ADN nem impressões digitais. Resultam de um complexo encontro das necessidades quotidianas com a tradição, dos ideais com a prática, da ciência com as artes.
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É um erro confundir cultura com produção artística ou com saber académico. Quando alguém diz “é uma pessoa muito culta” quer geralmente dizer que é uma pessoa com vastos conhecimentos, mas a cultura não resulta necessariamente de um conhecimento académico lato.
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Um homem solidário, tolerante, capaz de ouvir o outro e interessando pelo diferente é um homem culto. Um académico intolerante, arrivista, pedante ou assoberbado, é simplesmente burgesso.
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O intelectual não é necessariamente culto. O artesão não é necessariamente estúpido.
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Gramsci dizia que a cultura é disciplina do eu interior, domínio da personalidade. Como relacionar esta noção de cultura com toda uma sociedade?
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Que quer alguém dizer quando fala da cultura árabe? Ou da cultura americana? Ou da cultura chinesa? Que quer alguém dizer quando se refere à cultura portuguesa?
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Talvez se refira a meros estereótipos. Acontece que um dos princípios fundamentais do homem culto é combater os estereótipos. Enquanto preconceito, todo o estereótipo ou generalização é inimigo da cultura.
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Haverá uma cultura portuguesa?
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Encontramos a resposta a uma questão destas num complexo cruzamento de saberes que não está ao alcance de cada um. A educação talvez ajude a passar a mensagem.
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Agustina Bessa-Luís afirma, no Caderno de Significados, que «A cultura não se elabora, vive de toda uma filtragem moral e sentimental da sociedade que a produz. Não é obra de empresários nem de mecenas». Referia-se aos espectáculos. Mas acrescenta, e isto é o mais importante, «a cultura é feita por obras do pensamento». «A cultura não inspira deveres numerosos, mas um só dever: a consciência duma pessoal moral».
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A cultura tem pois que ver com a moral, logo com valores, logo com leis, logo com práticas, logo com a vida.
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A cultura provém da vida, enriquece-a e conserva-a. A cultura é, sobretudo, um esforço de conservação da vida.
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É por isso que consideramos obras de cultura as obras imorredoiras, as que perduram no tempo contra a efemeridade desenfreada do consumismo, as que os turistas querem visitar. Uma obra de cultura pode não ser eterna, porque de eterno conhecemos pouco mais do que o esquecimento. Mas perdura para lá do imaginável.
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É absolutamente catastrófico que se invista tão pouco na cultura. Os governos perdem mais tempo e gastam mais dinheiro com a indústria da morte do que com a conservação da vida. Ora secretaria de estado, ora ministério, a cultura esvai-se nestes tempos supérfluos em pouco mais do que entretenimento.
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Antes e hoje, pão e circo.
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Cada vez mais, constatamos o quão fundamental é investir na cultura, na propagação de valores que fundamentem e sustentem a vida, uma cultura de progresso moral, aberta à diferença, mas, sobretudo, empenhada no pensamento contra o imediatismo, esforçada na reflexão contra a vertigem noticiosa e opinativa, uma cultura que resgate para as pessoas o tempo, o ócio, a pausa, a capacidade até de parar, tão ameaçada que se encontra pela aceleração dos ritmos de vida, pelo ruído.
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Cultura do espírito crítico, cultura do "espera lá, mas isso é mesmo assim?", cultura da dúvida, do desassossego e da inquietação.
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Já sabemos quão nociva vai sendo esta incapacidade de parar para reflectir, tomada de assalto que foram as pessoas pela urgência tecnocrática. Não podemos prever, mas imaginamos, como será daqui a uns anos.
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Autómatos e insensíveis, os homens serão cada vez menos homens. Serão cada vez mais bestas formatadas. Ser besta é ser inculto, é não ter cultura.
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Trotski dizia que «A noção de cultura não deve ser trocada como moeda de uso individual e não se podem definir os progressos da cultura de uma classe segundo os passaportes proletários destes ou daqueles inventores ou poetas. A cultura é a soma orgânica de conhecimento e de experiência que caracteriza toda a sociedade ou, pelo menos, a sua classe dirigente. Abrange e penetra todos os domínios da criação humana e unifica-os num sistema. As realizações individuais erguem-se acima desse nível e elevam-no gradualmente».
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Espantoso o sentido que estas palavras continuam a fazer ainda hoje. Mas o que pensar e sentir quando constatamos a quase total ausência de cultura em tanta da chamada classe dirigente?
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Pão e circo, antes e hoje.
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Insensíveis aos problemas da cultura, os dirigentes jogam no tabuleiro da popularidade. Buscam adesão popular muito mais avidamente do que se preocupam com o incremento e a preservação de valores. Arrastados pela hegemonia do lúdico, respondem afirmativamente ao “império do efémero” acenando com o êxtase colectivo da festa.
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Um exemplo catastrófico desta realidade é o estado degradado do nosso vasto património imobiliário, ou a incúria reiterada com o património geográfico. Ruína e abandono resultam no filme de terror a que mais uma vez assistimos este ano com os diversos incêndios disseminados por todo o país.
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Ainda há quem pense que nada disto tem que ver com cultura, que é tudo fruto do crime e da doença e da especulação. Mas onde se desenvolvem melhor todos esses males senão em terrenos onde falta cultura?

2 comentários:

Maria Silva disse...

Não é possível que alguém aprenda a pensar a vida no imediatismo das relações em sociedade a qualquer nível nos tempos que vivemos.
Mesmo as tradições de um povo se estão a converter em moeda de troca: compram-se e vendem-se - só os sentem os que a beberam na infância.
Veja-se os eventos das festas nas aldeias promovidos pelos vários canais televisivos...
Desculpe se incomodei com o comentário. Gostei da súmula das observações.

hmbf disse...

Não incomoda nada e concordo plenamente com o que diz. Grato pelo comentário e pela partilha. Saúde,