O meu talento é bater palmas
ao talento dos outros. Respiro mal,
sofro de bronquite asmática,
tenho excesso de peso e voz sumida.
Os meus olhos já pouco vêem,
graças a Deus, e as pernas tremem
sempre que caminho em público.
Às vezes escrevo estórias que ninguém lê,
poemas sofríveis, já pintei quadros,
fiz filhas, coleccionei canetas e desilusões,
mas tudo me saiu torto. Excepto as filhas.
Para ser perfeitamente inapto
deve um homem aplicar-se em alguns
dos seus ofícios. Também plantei árvores
que nunca deram frutos e escrevi livros
que ninguém comprou. Felizmente.
Talvez o meu talento seja andar
para aqui a fingir que vale a pena.
Deixo de fumar vinte vezes ao dia,
chego a casa, abro uma garrafa de vinho,
vejo um filme de cowboys e sonho
com rios a atravessar Monument Valley,
o cheiro da Índia colado à pele,
poder vaguear sem rumo na direcção
de coisa nenhuma, os relógios parados,
os calendários dobrados, as agendas unidas.
Não tenho, nunca tive, é provável que jamais
venha a ter, a coragem dos vagabundos,
desses com quem Cristo gostava de conviver.
Achas que posso ser o próximo ídolo de Portugal?
Sábado, 6 de Abril de 2013
Henrique Manuel Bento Fialho, in “Pombos Lerdos”, Medula, Abril de 2018. Poemas
de Ana Bessa Carvalho, F. S. Hill, Henrique Manuel Bento Fialho, João Alexandre
Lopes, Jorge Aguiar Oliveira, José Ricardo Nunes, m. parissy, manuel a.
domingos, Maria João Lopes Fernandes, Rui Almeida, Rute Mota, Tatiana Faia.

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