MAR DOS SARGAÇOS
O domingo podia ser
das coisas mais belas
que um homem pode ter,
com cestas de marmelos,
nozes, pinhões, romãs
a crescerem nas mãos
de quem respiga frutos
pelos caminhos sementados.
Íamos ao cinema de mão dada,
sabíamos das mariazinhas
que por lá reaviam matinés.
Havia nos domingos um travo
a despedida e o gozo da volta,
correntes equatoriais
de águas quentes
e de ventos favoráveis.
Na estação dos domingos
o mundo folgava,
cozia-se um bolo,
andava-se nas ruas sem dor
a repartir côdea com pombos
num fato próprio de domingo
semblante próprio de domingo
família própria para domingo.
Tínhamos fé nesses dias vagueáveis.
Não eram dias iguais aos dias,
tão repisados que chega a ser triste
pensar no bom tempo que passámos.
Os domingos desapareceram,
levaram consigo as semanas.
O tempo mede-se aos palmos
por horários rotativos, turnos,
hemisférios invertidos.
A vida subjugada às grelhas
de uma matemática flexibilizável,
ponderada à medida da sofreguidão
dos galeões em concreto armado,
converteu-se ao naufrágio.
Passam meses sem nos vermos,
só por sorte desviar-nos-emos
de nós próprios, não vá o reflexo agonizar
fatalmente a esperança dos domingos
que sempre souberam acolher
pintores desesperados,
poetas inquietos,
mentes alvoroçadas.
Henrique Manuel Bento Fialho, in Sete, volta d’mar, Setembro
de 2018, pp. 17-18. Poemas de Amadeu Baptista, Ana Horta, António Miranda,
Carlos Alberto Machado, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Dias, Jaime Rocha,
Jorge Vicente, m. parissy, Manuel de Freitas, Nuno Rebocho, Rui Almeida, Rui
Tinoco e Sandra Costa. Ilustrações de Alexandre Esgaio.

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