terça-feira, 27 de abril de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #31

 


   Eis um título que me coloca numa posição desconfortável. A dúvida que me ocorre de imediato é o que vemos quando lemos «o que vemos quando lemos»? Será suposto vermos alguma coisa? Talvez seja defeito de maturação, mas eu sempre cultivei uma relação de invisibilidade com as palavras. Julgo que me dou tão bem com elas por me garantirem tal invisibilidade. Ao contrário de outros, não creio que as palavras tenham cheiro, cor, textura, não são como um corpo que se apalpe. É essa a sua vantagem, por isso não perecem. Mesmo as que caem em desuso, como algumas que já tereis encontrado em Camões, Gil Vicente... Têm forma e peso, sendo que em matéria de forma pouco poderemos acrescentar à invisibilidade com que nos tornam presentes as coisas. A caligrafia é a forma das palavras, nada que ofereça boca, nariz, orelhas. Não sabemos, nunca saberemos, a cor dos olhos das palavras nem o tipo de cabelo das palavras. No entanto, elas servem para que identifiquemos a cor dos olhos e o tipo de pêlo da Nala. Creio que não vos será difícil aceitar que, não podendo comunicar por palavras com a nossa pequena cadela, é por sons e gestos que ela nos responde e dela conseguimos reacções mais ou menos inesperadas. Entre nós, minhas filhas, entre nós que humanamente vamos desenvolvendo a linguagem do invisível, as palavras adquirem porém o poder de tornar presente o que julgávamos desaparecido, ausente, esquecido. As palavras fazem aparecer e neste aparecer há, sem dúvida, um ver, um tipo de ver pelos ouvidos, pelos dedos, pelos olhos, pelos sentidos através dos quais logramos contactar com a invisibilidade.

   O desconforto, perdoem-me, é causado pelo verbo ler. O que lemos quando lemos seria, talvez, a questão mais pertinente, mas o autor é formado em ver, em mostrar, em visualizar, pelo que devemos aceitar-lhe o esforço de pretender tornar compreensível essa complexa relação do lido com o visto. Peter Mendelsund estudou filosofia e literatura, tocou piano, dedicou-se ao design gráfico, e neste percurso não será difícil perceber quão imperioso será para ele compreender como a imaginação se articula com o pensamento através de sons e de imagens. Se o problema eram as capas dos livros que desenhava, o resultado é uma extraordinária abordagem a esse fenómeno inesgotável da linguagem. Uma fenomenologia da leitura, portanto, palavrão que podeis não estar dispostas a aceitar pacificamente mas que se tornará tão simples de aceitar como qualquer outra palavra quando com ele vos familiarizares. E este é, para mim, o ponto essencial. Anterior à visualização do que é lido importa investir numa familiarização com as palavras. O conselho que dou, se é que posso dar-vos algum nesta matéria, vai no sentido de estimular a vossa curiosidade ao ponto de sentirdes vontade de abrir os gradeamentos dos significados fixados pelos dicionários, porque as palavras são, antes de mais, animais selvagens que só por necessidade domesticamos. Não é possível, porém, domesticar um leão como domesticamos um gato, as palavras são leões numa selva  anterior às convenções que as transformam em gatinhos de colo.

   Este mesmo livro que ora vos sugiro poderá esmoutar caminho nesse sentido de um para lá do significado onde se mistura, sobretudo, a história de quem vê e lê, pois a palavra «preto» jamais será entendida da mesma forma para quem o preto for sinónimo de fascismo ou de anarquismo, luto ou liberdade, perigo ou elegância… Esmoutar? Eis uma palavra. O que vêem quando a lêem? Talvez a elegância do perigo, e dizê-lo assim é já um modo de colocar a questão que transcende as fronteiras das semântica, a etimologia, a raiz da palavra. Disse outrora que muitas das imagens neste livro são puro texto, devem ser lidas, assim como muitas das frases nele contidas, breves, sintéticas e eficazes como os melhores aforismos, apelam a um universo visual e imagístico que transforma a leitura numa autêntica experiência visual. Deste modo, o que vemos neste livro é também o que lemos. E o que lemos é, isso mesmo, o que vemos. É um livro que abre portas e janelas para uma paisagem de clássicos imprescindíveis, o que também o torna imprescindível. Mas é, antes de mais, minhas filhas, um objecto que torna presente quão complexa e sublime é a simplicidade de uma dúvida. Para mim é um privilégio poder aventurar-me na selvajaria das palavras. Espero que para vós também, já que no mundo em que vivemos não há mal que não tenha nascido dessa tendência para tudo domesticar, controlar, uniformizar e, por isso, reduzir.

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