Pedro Teixeira Neves (n. 1969), in Chiasco (Quasi, 2006). Jornalista de profissão durante largos anos, fotógrafo premiado, ilustrador, estreou-se com um romance intitulado Uma Visita a Bosch (2003). O primeiro livro de poesia surgiu apenas em 2006, nele se antevendo o gosto pelas formas curtas e por uma depuração próxima de alguma poesia oriental: «agarra essa pedra e abraça-a. / nem sempre o silêncio / tem a sua qualidade» (a qualidade do silêncio). As raízes, a ligação à natureza, o lirismo de pendor intimista, sofreram diversas inflexões ao longo dos livros subsequentes. A Tartaruga de Bob Wilson (Glaciar, 2018) pôs a claro a multirreferencialidade que o livro inicial induzia, em poemas amiudadamente críticos de um tempo detergente, como lhe chamou Ruy Belo, que a cultura — literária, cinematográfica, dramatúrgica, musical — ajuda a ultrapassar pela deslocação operada para um mundo alternativo ao quotidiano noticiário das superficialidades e canalhices humanas. Em Uma Vírgula Depois (Glaciar, 2019) sobressaiu o diálogo de tipo existencial com o poeta Ivo Machado, um livro escrito a duas mãos em que os poemas se apresentam sob a forma de missivas. A Parte que nos Toca é um poema longo (Labirinto, 2020), uma cosmogonia em tom apocalíptico com envios sucessivos para o texto bíblico. Já em Os trabalhos mais leves (69 poemas de jubilosa compenetração) (Húmus, 2021), a veia satírica, de pendor erótico, deixou transparecer a dimensão lúdica de uma poesia que não descarta o divertimento e assenta, sobretudo, numa exploração continuada das possibilidades expressivas da linguagem poética.

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