Nasceu em Bucareste no dia 23 de Julho de 1913. De
ascendência judaica, exilou-se no próprio país durante a II Grande Guerra. No
entanto, visitou frequentemente Paris no ano de 1938. Aí foi introduzido ao surrealismo. Terminada a Guerra, esteve na fundação de um grupo surrealista
romeno. Mário Cesariny não o incluiu em Textos de Afirmação e de Combate do
Movimento Surrealista Mundial (Perspectivas & Realidades, Novembro de
1977), preferindo destacar o trabalho de Paul Păun e Gellu Naum — ambos
fundadores do mesmo grupo. Um texto de
Marina Vancí nessa mesma antologia refere-se ao trabalho de Luca: «Menos
polémico que os escritos de [Geo] Bogza mas igualmente liberto de todo o
conformismo imposto pela «linguagem literária», o Romance de Amor de Ghérasim
Luca, como os poemas de Paul Păun ou de Naranga, assumem frequentemente um
desespero e um niilismo totais». Mais: «A assemblage automática de objectos, a
sua descoberta através do acaso tal como a sua interpretação teórica são o
motivo principal dos escritos em prosa de Ghérasim Luca (Objecto Objectivamente
Oferto, em O Vampiro Passivo, 1945)». E: «Luca acrescenta um terceiro obstáculo
aos que, exteriores, se opõem à libertação do homem da natureza e da sociedade:
o obstáculo interior, o complexo de Édipo. Só a destruição da posição edipeana
inicial permitirá, segundo Luca, a transformação qualitativa do amor em método
geral de revolução». Será ele o inventor das cubomanias, método de colagem que
consiste em remontar aleatoriamente uma imagem cortada em quadrados. Fixado na
Roménia desde o início da década de 1950, escreveu essencialmente em francês.
Isto explica a sua inclusão na antologia Sud-Express - poesia francesa de hoje
(trad. Miguel Serras Pereira, Relógio d'Água, 1993). Em Paris, foi próximo de
Max Ernst, Paul Celan, Jean Arp, organizou diversas leituras, tornou-se
relativamente popular na sequência de um programa para televisão realizado em
1988 (está disponível no YouTube). Em 1994, expulso do apartamento onde vivia
em Montmartre, sem documentação e isolado, acaba por se suicidar atirando-se ao
Sena. Tinha 80 anos. Em Portugal, da sua autoria, foram publicados O Vampiro
Passivo (7 Nós, 2014), Funda Mental – poemas escolhidos XX (Ignota, 2018) e
Mandado de Libertação (não (edições), Março de 2021). Este último consiste num
conjunto de 23 cartas, escritas diariamente e enviadas a um desconhecido
escolhido ao acaso. Reproduzo a primeira. A tradução é de Helder Moura Pereira:
6 de Novembro de 19..
Meu Caro,
Experimenta-se por vezes, como hei-de dizer, uma espécie
de pudor ilusório e, na essência, negativo ao pronunciar o seu nome ou muito
simplesmente as suas iniciais.
Indique-me antes o seu número, a penumbra contida em si…
Mas quais são, em rigor, as suas qualidades?
O homem deve conseguir ver o ar naquilo que pensa.

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