terça-feira, 24 de agosto de 2021

CARTAS DE GHÉRASIM LUCA

 


Nasceu em Bucareste no dia 23 de Julho de 1913. De ascendência judaica, exilou-se no próprio país durante a II Grande Guerra. No entanto, visitou frequentemente Paris no ano de 1938. Aí foi introduzido ao surrealismo. Terminada a Guerra, esteve na fundação de um grupo surrealista romeno. Mário Cesariny não o incluiu em Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial (Perspectivas & Realidades, Novembro de 1977), preferindo destacar o trabalho de Paul Păun e Gellu Naum — ambos fundadores do mesmo grupo.  Um texto de Marina Vancí nessa mesma antologia refere-se ao trabalho de Luca: «Menos polémico que os escritos de [Geo] Bogza mas igualmente liberto de todo o conformismo imposto pela «linguagem literária», o Romance de Amor de Ghérasim Luca, como os poemas de Paul Păun ou de Naranga, assumem frequentemente um desespero e um niilismo totais». Mais: «A assemblage automática de objectos, a sua descoberta através do acaso tal como a sua interpretação teórica são o motivo principal dos escritos em prosa de Ghérasim Luca (Objecto Objectivamente Oferto, em O Vampiro Passivo, 1945)». E: «Luca acrescenta um terceiro obstáculo aos que, exteriores, se opõem à libertação do homem da natureza e da sociedade: o obstáculo interior, o complexo de Édipo. Só a destruição da posição edipeana inicial permitirá, segundo Luca, a transformação qualitativa do amor em método geral de revolução». Será ele o inventor das cubomanias, método de colagem que consiste em remontar aleatoriamente uma imagem cortada em quadrados. Fixado na Roménia desde o início da década de 1950, escreveu essencialmente em francês. Isto explica a sua inclusão na antologia Sud-Express - poesia francesa de hoje (trad. Miguel Serras Pereira, Relógio d'Água, 1993). Em Paris, foi próximo de Max Ernst, Paul Celan, Jean Arp, organizou diversas leituras, tornou-se relativamente popular na sequência de um programa para televisão realizado em 1988 (está disponível no YouTube). Em 1994, expulso do apartamento onde vivia em Montmartre, sem documentação e isolado, acaba por se suicidar atirando-se ao Sena. Tinha 80 anos. Em Portugal, da sua autoria, foram publicados O Vampiro Passivo (7 Nós, 2014), Funda Mental – poemas escolhidos XX (Ignota, 2018) e Mandado de Libertação (não (edições), Março de 2021). Este último consiste num conjunto de 23 cartas, escritas diariamente e enviadas a um desconhecido escolhido ao acaso. Reproduzo a primeira. A tradução é de Helder Moura Pereira:
 
6 de Novembro de 19..
 
Meu Caro,
 
Experimenta-se por vezes, como hei-de dizer, uma espécie de pudor ilusório e, na essência, negativo ao pronunciar o seu nome ou muito simplesmente as suas iniciais.
Indique-me antes o seu número, a penumbra contida em si…
Mas quais são, em rigor, as suas qualidades?
O homem deve conseguir ver o ar naquilo que pensa.


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