O dramaturgo Owen McCafferty (1961) nasceu em Belfast, na Irlanda do Norte, palco de sangrentos conflitos entre as populações católica e protestante, republicanos e fieis ao Império Britânico. Entre 1960 e 1998, a cidade sobreviveu literalmente dividida. Grupos paramilitares rivais impunham um clima de guerra civil com acções terroristas de ambos os lados, bombardeamentos, assassinatos. Homens, mulheres e crianças morreram durante os conflitos. Hoje, lembramo-nos sobretudo do IRA – Exército Republicano Irlandês. A indústria cinematográfica encarregou-se de varrer para debaixo do tapete as acções levada a cabo pela UVF – Força Voluntária do Ulster. Em Dezembro de 1971, 15 pessoas, incluindo duas crianças, morreram na sequência de uma bomba atirada pelos homens da UVF para o McGurk’s Bar. Os alvos do IRA eram protestantes, unionistas, representantes do governo britânico. Os alvos da UVF eram o IRA, o republicanismo, não tendo a maioria das suas vítimas qualquer tipo de vínculo ao IRA. Eram simplesmente católicos. McCafferty saiu de Belfast com apenas 1 ano de vida, mas regressou precisamente em 1971, com 10 anos. O ruído das explosões não lhe terá sido indiferente, bem como o clima de medo e de perseguição, as provocações, o ódio. O seu trabalho ganhou relevo em 2003, depois da peça Cenas do Grande Fresco (Scenes from the Big Picture) ter granjeado três importantes prémios. Sem Alarde (Quietly) é uma pequena peça que reflecte as cicatrizes deixadas pelos conflitos em Belfast, colocando em cena duas personagens, Jimmy e Ian, da mesma idade, num reencontro reconciliador no bar onde Ian matou o pai de Jimmy 36 anos antes, em 1974. Ian conta como tudo se passou, Jimmy escuta-o, interrompe-o, recorda o último dia do pai. Ian era um miúdo recrutado pela UVF, Jimmy era filho de católicos. Depois do pai morrer tornou-se ateu. Estão num bar e falam, recordam, provocam-se, Jimmy resiste à expiação de Ian. Estão num bar a fingir que vêem um jogo de futebol, tal como 36 anos antes o pai de Jimmy estava naquele bar a ver um jogo de futebol. A selecção irlandesa defronta a Polónia. Atrás do balcão, um jovem barman de origem polaca serve-os, escuta-os, assiste ao jogo, troca mensagens com a companheira. Farta de ser imigrante, ela quer regressar à Polónia. No final, a Irlanda vence. Nas ruas, uns miúdos batem nos tapumes do bar e insultam Robert, o barman polaco: «polaco cabrão de merda — porco nojento cabrão de merda — volta prá tua terra e caga na rua polaco de merda». O ódio entre católicos e protestantes foi transferido para os imigrantes. Unidos, os irlandeses precisam de um novo alvo. Aí o têm. É sempre assim, não é? Esta guerra não pára, a necessidade de conflitos obriga a que se encontrem alvos contra os quais possamos disparar as flechas do nosso ódio carregado de intolerantes frustrações, convicções, certezas, crenças absolutas. O mais cruel é perceber que será sempre assim, a um conflito seguir-se-á outro, os homens precisam de se manter ocupados, não conseguem viver em paz e sossego. A barbárie é real, a civilização uma utopia, o amor algo que se prega como quem prime um travão na esperança de retardar a catástrofe.

1 comentário:
Confirmadíssimas as tuas palavras, embora as coisas tenham apaziguado o conflito na Irlanda do Norte, não tem fim à vista. As sementes do ódio mais o sectarismos fazem parte da educação levada a cabo pelas famílias de ambos os lados. Os níveis de racismo em relação aos emigrantes é dos mais elevados no Reino Unido, embora se viva o dia a dia num ambiente de harmonia hipócrita...é indiscritível. Eu chamo-lhe tolerância amestrada uma prática forçada pelo colonialismo Britânico. Abraço!
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