A casa das árvores fica num vale. Passei por ela inúmeras vezes, mas nunca a vi. Rodeada por sebes altas e árvores de fruto, marmeleiros, macieiras, nespereiras, figueiras, conserva-se protegida de maus olhares por ser imperceptível a sua existência. Invejo-a. Um portão de madeira fechado com uma corrente dá para um terreno aparentemente abandonado, a entrada encontra-se mais acima, ao fundo de uma estreita estrada de terra batida com curva ligeira. Quem por ali passe e desvie o olhar não avista o fundo da estrada, onde a entrada se abre com simplicidade e sem estrondo através de um gradeamento tosco. Sei e vi a paisagem próxima coberta por quilómetros de estufas, mas na casa das árvores todas essas dores de crescimento passam despercebidas. É uma casa com raízes, a gente sente-se no meio delas como se mergulhasse debaixo da terra e andasse entre as raízes a descobrir pequenos tesouros. Lembrei-me do Covil, só por causa dessa imagem inusitada duma possível existência subterrânea. O ambiente nada tem de claustrofóbico ou ameaçador, antes pelo contrário. Dei com um poeta no interior da casa das árvores, médico bastante considerado, três livros prefaciados por gente conhecida. Fixei um pequeno poema, muito simples, que dizia assim: «Comer é comer. / Amar é amar. / Comer não é fazer comida.» No exterior, de manhã aproveitava as espreguiçadeiras para ler o D. Quixote. À noite, com as luzes todas apagavas, ficava com uma panorâmica astronómica privilegiada. Vi várias estrelas cadentes e um pequeno meteorito a desfazer-se em chamas enquanto penetrava a nossa atmosfera. Não quero já dizer quem era o poeta, espalhado pelas paredes em fotografias de família. Li-o por vezes acompanhado pelo saxofone de Michael Brecker, nos Steps. Álbum Paradox, de 1982, já com Peter Erskine na bateria. Pareceu-me tudo muito equilibrado e estranhamente pacificador, mesmo que por vezes tanto as palavras como o som como as palavras do som como o som das palavras fizessem intuir desassossegos. É assim o correr do tempo, pelo caminho as pedras, os obstáculos, os desvios, as precipitações. E tudo faz parte, tal como durante a queda no abismo por momentos poderá parecer que vamos a voar.

Sem comentários:
Enviar um comentário