sexta-feira, 6 de agosto de 2021

UM POEMA DE JOSÉ LUIZ TAVARES

 


TRÊS ÚLTIMAS CARTAS A TI TRAIDOR LEITOR

1.

Descrê, meu amigo, dos rútilos usos
da palavra poesia — o animal
que lavra em ti move-se nos esconsos
lugares de penumbra,
afeito à íngreme maturação da fala.

O que perdeste, e agora recordas,
te seja doce precipício,
longe da comum expectativa
e seu eco mil vezes repetido.

Duvida do lugar que dizem
pertencer-te — perdidas pátrias,
jamais havidas, a sombra do que
amaste, ressumando em cada verso,
são a inóspita morada que te não protege
do naufrágio em estranhos portos e fronteiras.

Aí saberás que a dor é sem partilha,
e o cautério da luz requer essa íntima
cegueira que nenhuma alba fende
com o latido dos deuses diurnos.

A imperfeita medida destas versos,
seu ritmo sobressaltado, te ensinem
que a ignorância do que mais amas
é a razão desta arte de perder-se.

2.

Noutro século nos disseram nascidos
entre ferros seus bramidos
não contando das eras os perigos
e tantos redivivos inimigos

e claros foram os rumos que decidimos
quando fuscos amanhecemos
e da morte soubemos (ou não soubemos)
ao cambar do azul pelos céus dos cimos

e eretos homens então nos fizemos
nos plainos onde verde apenas o vento
aurindo num rouco serial memento
por esse dia rútilo em que nascemos

inda da vida jamais sabidos
suas brunidas feridas ao rés do lume
por tantas navegações pelo negrume
tal pobre ulisses porém mais desvalidos

3.

Já o vi esboroando-se ao vento
em ritmo galopado valsa lenta
mas pouco ou nada me apoquenta
saber que é morto quanto inverno

tarde muito tarde busquei alimento
na sombra dalgum gasto pensamento
mas só os ecos de um céu em aluimento
me foram sorte ou valimento

pois ver do mundo o entardecer
tal a vida em seu declínio lento
desdourado o antigo polimento
traz a alma em tão duro padecer

nunca porém me foi poesia lenitivo
talvez cinza dalgum gasto sentimento
senão mesmo tão sentido fingimento
onde a vida se engendra em fogo vivo

e tudo é brado solidão ou pena
porém não mais inspiração alada
(bem menos que um voo de falena)
que sempre foi poesia só vida extraviada

José Luiz Tavares, in Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio, prémio de poesia Imprensa Nacional/Vasco graça Moura 2018, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Setembro de 2019, pp. 161-164.

2 comentários:

Anónimo disse...

Posto assim, pá, até pareço um Pichardo da poesia; contudo, um preto de maus bofes, trinta e três anos na lusitânia, e ainda sequer português, clandestino hoje por incapacidade do SEF, essa famosa entidade de bem, de renovar-lhe uma simples autorização de residência. Bem-haja, ou hajem, como diria um luzidio comentador televisual.

José Luiz Tavares

hmbf disse...

Não tens autorização de residência? Isso é sério?