quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

ENTRE O DURO REAL E O SONHO VIVIDO

 


Dois novos livros de Henrique Manuel Bento Fialho
mostram uma escrita segura e hábil

Por Sérgio Almeida
Jornalista

Depois de "Micróbios", conjunto diversificado de narrativas breves publicado pela Abysmo no final do ano passado, Henrique Manuel Bento Fialho regressou à publicação nos últimos meses. Fê-lo com dois títulos igualmente muito distintos entre si que, como afirmou o autor numa entrevista ao Jornal de Notícias, confirmam uma "incorrigível inclinação para objectos ambíguos, híbridos, difíceis de catalogar", no que pode ser entendido como um salutar "desafio para livreiros e bibliotecários".
Mergulhando entre o poema em prosa e o conto, "géneros que há muito se fundem e confundem", "Levedura" é uma imersão numa ruralidade profunda. Não a do citadino que se deixa encantar pelo som tranquilizador dos regatos ou do chilrear dos passarinhos, como se tornou frequente em muitas abordagens literárias recentes, mas a de homens e mulheres que entranham as mãos na sujidade da terra e sofrem com a exploração desumana a que são continuamente sujeitos.
Produto de uma residência literária em Rio Maior, localidade de onde Bento Fialho é natural, o livro nasceu do contacto do autor com idosos que partilharam evocações de jornadas laborais duríssimas na produção do pão e do vinho, de que resultaram textos em carne viva, nos quais se conclui que "a guerra é estar vivo".
São "memórias entrapadas em mantas de retalhos ou carregadas em cestos de pau, pesados como pedras, sob os quais nos esbardalhamos ao comprido, arruinando os cachos do pensamento".
Com linhas (e ambiências) dissemelhantes se escreve "Na cama com Ofélia", um texto dramatúrgico que nasceu de um desafio lançado pelo encenador Fernando Mora Ramos.
Ofélia Queiroz autonomiza-se do papel de eterna namorada de Fernando Pessoa, a que a História a subalternizou, e surge-nos nestas páginas como uma mulher entregue a êxtases místicos e bruxedos que, num ambiente onírico, desfia os seus desejos e emoções, rodeada por três heterónimos que não sabem o que fazer com um corpo.

Jornal de Notícias, 14 de Dezembro de 2022, p. 27.


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