Dois novos livros de Henrique Manuel Bento Fialho
mostram
uma escrita segura e hábil
Por Sérgio Almeida
Jornalista
Depois de "Micróbios", conjunto diversificado
de narrativas breves publicado pela Abysmo no final do ano passado, Henrique
Manuel Bento Fialho regressou à publicação nos últimos meses. Fê-lo com dois
títulos igualmente muito distintos entre si que, como afirmou o autor numa
entrevista ao Jornal de Notícias, confirmam uma "incorrigível inclinação
para objectos ambíguos, híbridos, difíceis de catalogar", no que pode ser
entendido como um salutar "desafio para livreiros e bibliotecários".
Mergulhando entre o poema em prosa e o conto,
"géneros que há muito se fundem e confundem", "Levedura" é
uma imersão numa ruralidade profunda. Não a do citadino que se deixa encantar
pelo som tranquilizador dos regatos ou do chilrear dos passarinhos, como se
tornou frequente em muitas abordagens literárias recentes, mas a de homens e
mulheres que entranham as mãos na sujidade da terra e sofrem com a exploração
desumana a que são continuamente sujeitos.
Produto de uma residência literária em Rio Maior,
localidade de onde Bento Fialho é natural, o livro nasceu do contacto do autor
com idosos que partilharam evocações de jornadas laborais duríssimas na
produção do pão e do vinho, de que resultaram textos em carne viva, nos quais
se conclui que "a guerra é estar vivo".
São "memórias entrapadas em mantas de retalhos ou
carregadas em cestos de pau, pesados como pedras, sob os quais nos
esbardalhamos ao comprido, arruinando os cachos do pensamento".
Com linhas (e ambiências) dissemelhantes se escreve
"Na cama com Ofélia", um texto dramatúrgico que nasceu de um desafio
lançado pelo encenador Fernando Mora Ramos.
Ofélia Queiroz autonomiza-se do papel de eterna namorada
de Fernando Pessoa, a que a História a subalternizou, e surge-nos nestas
páginas como uma mulher entregue a êxtases místicos e bruxedos que, num
ambiente onírico, desfia os seus desejos e emoções, rodeada por três
heterónimos que não sabem o que fazer com um corpo.
Jornal de Notícias, 14 de Dezembro de 2022, p. 27.

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