quarta-feira, 3 de abril de 2024

MOLIÈRE

 
   E como se o chicote das pestes já não bastasse, o medo da doença transformou-se numa nova doença.
   Em Inglaterra, os médicos atendiam pacientes que se julgavam frágeis como potes de barro e que se afastavam das pessoas para evitarem chocar com elas e partir-se; e, em França, Molière dedicou ao doente imaginário a última obra que criou, dirigiu e onde actuou.
   Troçando das suas próprias manias e obsessões, Molière gozava de si próprio. Ele representava a personagem principal: enterrado nos almofadões da sua poltrona, envolto em peles, com o barrete até às orelhas, submetia-se a continuas sangrias, purgantes e clisteres, receitados pelos médicos que lhe diagnosticavam bradipepsia, dispepsia, apepsia, lienteria, disenteria, hidropisia, hipocondria, hipocrisia...
   A obra estreara há pouco tempo, com êxito, quando uma tarde todo o elenco lhe suplicou que suspendesse a sessão. Molière estava muito doente, deveras doente e não com febre imaginária. Respirava mal, tossia muito e quase não conseguia falar e andar.
   Suspender a sessão? Ele nem se deu ao trabalho de responder. Os colegas convidavam-no a trair o reino onde nascera e vivera, desde aquele dia em que deixara de ser quem era e se transformara em Molière para divertir o bom povo.
   E, nessa noite, o doente imaginário fez rir, mais do que nunca, o público que enchia a sala. E o riso, escrito e desempenhado por Molière, ergueu-o acima das suas penúrias e do seu pânico de morrer, e graças ao riso, que de tudo se ria, nessa noite desempenhou o melhor trabalho da sua vida. Tossiu até rebentar o peito, mas não esqueceu uma única palavra do seu papel e quando vomitou sangue e caiu ao chão, o público acreditou, ou soube, que a morte fazia parte da obra, e ovacionou-o enquanto o pano caía com ele.

In "Espelhos - Uma História Quase Universal", tradução de Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018.

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