sexta-feira, 5 de abril de 2024

PORTE-CHAISE D’AFFAIRES

 


 
   Título, grau, posição, posto — o sonho e cobiça de todos os cortesãos! Estar um posto à frente de alguém, estar a menos um passo do ídolo do píncaro… ainda que o trono não fosse a poltrona dourada do cerimonial, mas uma peça de mobiliário muito mais prosaica, com um orifício no meio, onde qualquer Sua Majestade se irmanava aos mais simples mortais.
   Embora com o risco de nos considerarem um tanto escatológicos, somos obrigados a dedicar algum espaço ao protocolo e à mística desse utensílio caseiro. Franciso I, rei de França, criara já o posto de porta-retrete (porte-chaise d’affaires). Os respectivos titulares desempenhavam o seu cargo envergando uniformes propositadamente desenhados para tal fim e usando medalhas e espadas. As tarefas inerentes à retrete eram das mais cobiçadas na Corte, pois se os resultados das funções aí satisfeitas fossem lisonjeiros, Sua Majestade mostrava-se extremamente generoso em dispensar favores. Em tempos mais recuados, tal espectáculo era o mais público possível. Porém, Luís XIV, com elevado tacto e delicadeza, restringiu essa publicidade, decidindo que tão íntima função não se prestava a realizar no meio de grandes multidões. Sempre que utilizava o prosaico trono, bania fosse quem fosse da sua presença, durante breve meia hora, com excepção dos príncipes ou princesas de sangue, da Senhora de Maintenon, dos ministros e do chefe dos dignitários da corte — ao todo, pouco menos de meia centena de afortunadas pessoas.
   A chamada chaise percée —cadeira furada — merecia o respeito que lhe dispensavam, pois era construída com pompa e luxo adequados. Catarina de Médicis possuía duas: uma coberta de veludo azul, e outra de veludo vermelho. Depois da morte do marido encomendou uma terceira; mandou-a forrar de veludo negro, em sinal de luto, o que bem testemunha as profundidades a que descia o desgosto da real viúva.
   Quando Fernando IV, rei de Nápoles, ia ao teatro, a importante peça de mobiliário seguia-o, levada por um destacamento da Guarda Real, comandado por um coronel. Podia gozar-se o interessante espectáculo, sempre que o rei decidia assistir a uma representação: uma força de guardas, em uniforme de gala e empunhando archotes, marchava do palácio para o teatro escoltando o augusto trono privado. Por onde quer que passasse, os soldados faziam-lhe continência e os oficiais perfilavam-se, de espada desembainhada.
 
Paul Tabori, in “História Natural da Estupidez”, trad. Fernando de Morais, Book Builders, Março de 2017, pp. 104-105.

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