sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

DESCONCERTO

 
Primeira leitura do ano: Measure for Measure, de William Shakespeare (1564-1616), Dente por Dente na tradução de Luiz Francisco Rebello. Mistress Overdone, gerente de bordel, podia ser a patroa de Chen-Té e de Yvette Pottier, duas prostitutas no teatro de Brecht. Aproveito para engendrar associações com Mandrágora, de Maquiavel (1469-1527), ou mesmo George Dandin ou le Mari confondu, de Molière (1622-1673). As palavras astúcia, ardil, argúcia são comuns. E faço inventários:
 
- Hamlet (1599?), Dinamarca, o filho a quem o pai aparece sob a forma de fantasma, vingança, loucura, Ofélia, amante do príncipe, suicida-se.
- A Tragédia de Otelo, Mouro de Veneza, Veneza, Chipre, inveja e manipulação, Iago, o mau da fita, racismo, Desdémona vilipendiada, acusada de trair Otelo, morta pelo marido enganado.
- Measure for Measure (1603?), Viena, a hipocrisia dos moralistas, corrupção da justiça, o desconcerto do mundo. Isabel, freira a quem é sugerido vender o corpo para salvar o irmão da decapitação.
- A tragédia do Rei Lear (1605?), Bretanha pré-romana, o poder dividido pelas filhas, cegueira e loucura
- A Tragédia de Macbeth (1606?), Escócia, a ambição que leva à loucura e à paranóia, a manipuladora Lady Macbeth, a sonâmbula, sentimento de culpa, loucura. Cordélia, deserdada por dizer a verdade. Conspiração. O pai arrependido, a execução da verdade e da bondade.
 
E fiquemos por aqui, entre as balizas do mundo desconcertado e da loucura humana muito há a jogar. As regras mudam, mas o jogo mantém-se inalterado ao longo dos séculos.

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