Fui ver os Bonecos de Santo Aleixo no dia em que soube da morte do Nuno. Que outra forma encontrar para disfarçar a repugnância face às notas de rodapé mal alinhadas? Saí de lá a pensar que há mais vida naqueles bonecos do que em muitas almas, tese que não carece de prova ao ligarmos a televisão num qualquer canal noticioso. O teatro. O teatro é a arte onde as vítimas ganham voz, isto é, onde a voz das vítimas e dos carrascos é colocada ao mesmo nível. Em mais nenhum lado as vítimas encontram corpo e espaço para se fazerem ouvir como no teatro, nessas assembleias em que, colectivamente, assistimos não aos julgamentos, mas à exposição dos elementos que compõem uma relação possível entre vozes. A voz do ministro dos negócios estrangeiros português fez-se ouvir: benigno, disse ele. E ao dizê-lo, transformou num acto saudável o esbulho, o rapto, a violência mais pérfida dos tiranos. Em suma, o uso ilegítimo da força para agressões que violam a soberania dos estados passa a ser benigno. Como uma espécie de cancro benigno. Só que este mata. Infelizmente, não se matará a si próprio nem quem cauciona tal benignidade. Apetecia-me ver novamente os bonecos.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
TÍTERES
Fui ver os Bonecos de Santo Aleixo no dia em que soube da morte do Nuno. Que outra forma encontrar para disfarçar a repugnância face às notas de rodapé mal alinhadas? Saí de lá a pensar que há mais vida naqueles bonecos do que em muitas almas, tese que não carece de prova ao ligarmos a televisão num qualquer canal noticioso. O teatro. O teatro é a arte onde as vítimas ganham voz, isto é, onde a voz das vítimas e dos carrascos é colocada ao mesmo nível. Em mais nenhum lado as vítimas encontram corpo e espaço para se fazerem ouvir como no teatro, nessas assembleias em que, colectivamente, assistimos não aos julgamentos, mas à exposição dos elementos que compõem uma relação possível entre vozes. A voz do ministro dos negócios estrangeiros português fez-se ouvir: benigno, disse ele. E ao dizê-lo, transformou num acto saudável o esbulho, o rapto, a violência mais pérfida dos tiranos. Em suma, o uso ilegítimo da força para agressões que violam a soberania dos estados passa a ser benigno. Como uma espécie de cancro benigno. Só que este mata. Infelizmente, não se matará a si próprio nem quem cauciona tal benignidade. Apetecia-me ver novamente os bonecos.
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