sexta-feira, 6 de março de 2026

50 x 40

 


"Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável": Mão Morta

Foi o último disco de rock português a entusiasmar-me verdadeiramente, já lá vão 28 anos. De uma coisa não podem os Mão Morta ser acusados, da rendição ao vazio absoluto que tem vindo a tomar conta de nós. Depois de Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável (1998), concebido a partir das teses situacionistas, já nos ofereceram material inspirado no Conde de Lautréamont, abordaram as teorias apocalípticas, exploraram o caos climático em que estamos envolvidos, etc. E isto leva-me a outros temas. Na Assembleia Municipal de Lisboa, a 13 de Janeiro de 2026, a deputada Margarida Bentes Penedo, com a pasta da Habitação no Governo Sombra do Chega – na Cultura teríamos Teresa Nogueira Pinto (rica peça) – airou-se à linha artística do Teatro do Bairro Alto. Mais recentemente, foi visado o Teatro Animação de Setúbal, atacado pelos vereadores do Chega por ter uma “agenda ideológica”. Em causa uma peça de Rui Zink, imagine-se, intitulada “Manual do bom fascista”, e um recital de poesia Queer – os do Chega pronunciam Quer. Estes ataques à cultura vão repetir-se, são ataques não à cultura em sentido lato – a das picarias e touradas não os afecta, nem outros inócuos entretenimentos de massas -, mas a opções de programação, sempre na base do mesmo argumento: estar o dinheiro público a financiar aquilo a que eles chamam “endoutrinação”, exactamente o mesmo argumento utilizado contra a disciplina de Cidadania. Ora, a endoutrinação ou endoutrinamento é precisamente o que a extrema-direita faz ao pretender limitar o acesso à diversidade, ao pretender restringir a produção cultural à cultura de massas anódina, ao tentar cercear as liberdades criativas apontando o dedo ao que julgam ser minorias privilegiadas. Qualquer objecto cultural que aborde temas como o racismo, a identidade de género, o problema da imigração, a violência doméstica, ou se foque, por exemplo, no crescimento dos populismos e da extrema-direita conservadora, cristalizante, será sempre por essa gente considerado doutrinário, na medida em que não admitem o debate, a reflexão, a discussão como um propósito artístico inerente à própria criação, olham para um objecto artístico como um produto fechado, propagandístico, reduzido a uma ideia de utilidade prática que não deve transpor as fronteiras do entretenimento. Foi sempre assim, temos os exemplos fornecidos pela História do século XX. A única forma de resistir a isto é unir forças no sentido de propor, através da diversidade – eu, por exemplo, sou consumidor de cultura de massas, já papei tudo o que é festivais de música neste país -, alternativas o mais abrangentes possível, estimulando o debate, a reflexão crítica, provocando até quando é necessário provocar, derrubando os muros que impedem a crítica. Sem essa energia transformadora vamos acabar comidos pelo “espectáculo” vazio, inofensivo, do mero entretenimento, esse sim verdadeiramente doutrinário da letargia legitimadora dos males que assolam o mundo. Sem estarem confinados pelo meio, os Mão Morta nunca deixaram de andar no interior do meio desbravando caminho para as margens. Honra lhes seja feita.

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