sexta-feira, 24 de abril de 2026

APOSTAS

 
O mundo transformado num casino, com políticos a actuar como jogadores de poker exímios no bluff. Revela o The New York Times que o filho mais novo de Trump tem ligações aos dois maiores "prediction markets" (mercados de profecias), o Polymarket e o seu concorrente, o Kalshi: «É consultor remunerado do Kalshi. E a 1789 Capital [grande nome!], uma empresa de capital de risco da qual Donald Trump Jr. é sócio, investiu no Polymarket. Trump é também consultor não remunerado da empresa.» O que são estas empresas de oráculos? São, basicamente, casas de apostas que permitem aos jogadores apostar numa vasta gama de eventos futuros. Vão os EUA transformar Gaza num resort de luxo? E o povo aposta com a mesma excitação de quem se entrega às raspadinhas, mas ganha quem estiver na posse de informações sobre o futuro. Quem são os Tirésias da actualidade? Por exemplo: «um soldado das forças especiais do Exército dos EUA envolvido na captura do presidente Nicolás Maduro da Venezuela foi acusado de usar informações confidenciais para apostar em eventos relacionados com a missão.» Nestes sites de apostas tanto se pode apostar em quanto tempo o primeiro-ministro britânico Keir Starmer se aguentará no cargo como em quantas mensagens Elon Musk enviará nas redes sociais no próximo mês ou qual será a temperatura em Paris num determinado dia. Resultado: «Antes de grandes acontecimentos, como o ataque americano-israelita ao Irão ou os Óscares, um grande número de apostas surgiu nos mercados de previsão, a maioria delas a prever correctamente o que estava prestes a acontecer. Talvez estas pessoas tivessem sorte ou fossem extremamente perspicazes. Mas também surgiu a suspeita de que poderiam ter tido informações privilegiadas e usá-las nas suas apostas — tal como alguns investidores podem usar informações privilegiadas para ganhar dinheiro ilegalmente no mercado bolsista. Uma análise do New York Times baseada em dados da Polymarket mostrou centenas de apostas num único dia de Junho passado a prever que os Estados Unidos atacariam o Irão. O Times descobriu que tais apostas eram bastante incomuns até então.» Estão a ver a coisa? Chama-se economia de casino, os cidadãos são jogadores. Para quê leis laborais se podemos ganhar a vida a apostar na aprovação do pacote? Diz a ainda o TNYT que, em 2003, «o Pentágono planeou um mercado online no qual os apostadores poderiam prever ataques terroristas, assassinatos e outros acontecimentos políticos de grande impacto, na esperança de obter dados úteis. O plano gerou protestos por parte dos legisladores que consideraram macabro a ideia de as pessoas lucrarem com acontecimentos terríveis, e foi rapidamente descartado.» Foi há 23 anos. Já não é. O que há duas décadas era do domínio da ficção científica e das mais improváveis distopias, faz hoje parte do nosso quotidiano. É neste mundo que estamos a viver, o da lógica do bluff.

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