O mundo
transformado num casino, com políticos a actuar como jogadores de poker exímios
no bluff. Revela o The New York Times que o filho mais novo de Trump tem
ligações aos dois maiores "prediction markets" (mercados de
profecias), o Polymarket e o seu concorrente, o Kalshi: «É consultor
remunerado do Kalshi. E a 1789 Capital [grande nome!], uma empresa de capital
de risco da qual Donald Trump Jr. é sócio, investiu no Polymarket. Trump é
também consultor não remunerado da empresa.» O que são estas
empresas de oráculos? São, basicamente, casas de apostas que permitem aos
jogadores apostar numa vasta gama de eventos futuros. Vão os EUA transformar
Gaza num resort de luxo? E o povo aposta com a mesma excitação de quem se
entrega às raspadinhas, mas ganha quem estiver na posse de informações sobre o
futuro. Quem são os
Tirésias da actualidade? Por exemplo: «um soldado das forças especiais do
Exército dos EUA envolvido na captura do presidente Nicolás Maduro da Venezuela
foi acusado de usar informações confidenciais para apostar em eventos
relacionados com a missão.» Nestes sites de
apostas tanto se pode apostar em quanto tempo o primeiro-ministro britânico
Keir Starmer se aguentará no cargo como em quantas mensagens Elon Musk enviará
nas redes sociais no próximo mês ou qual será a temperatura em Paris num
determinado dia. Resultado: «Antes de grandes acontecimentos, como o
ataque americano-israelita ao Irão ou os Óscares, um grande número de apostas
surgiu nos mercados de previsão, a maioria delas a prever correctamente o que
estava prestes a acontecer. Talvez estas pessoas tivessem sorte ou fossem
extremamente perspicazes. Mas também surgiu a suspeita de que poderiam ter tido
informações privilegiadas e usá-las nas suas apostas — tal como alguns
investidores podem usar informações privilegiadas para ganhar dinheiro
ilegalmente no mercado bolsista. Uma análise do New York Times baseada em dados
da Polymarket mostrou centenas de apostas num único dia de Junho passado a
prever que os Estados Unidos atacariam o Irão. O Times descobriu que tais
apostas eram bastante incomuns até então.» Estão a ver a
coisa? Chama-se economia de casino, os cidadãos são jogadores. Para quê leis
laborais se podemos ganhar a vida a apostar na aprovação do pacote? Diz a ainda
o TNYT que, em 2003, «o Pentágono planeou um mercado online no qual os
apostadores poderiam prever ataques terroristas, assassinatos e outros acontecimentos
políticos de grande impacto, na esperança de obter dados úteis. O plano gerou
protestos por parte dos legisladores que consideraram macabro a ideia de as
pessoas lucrarem com acontecimentos terríveis, e foi rapidamente
descartado.» Foi há 23 anos. Já não é. O que há duas décadas era do
domínio da ficção científica e das mais improváveis distopias, faz hoje parte
do nosso quotidiano. É neste mundo que estamos a viver, o da lógica do bluff.
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