Em “Fahrenheit 451” os bombeiros ateiam fogos em vez de os combaterem, cães-polícia de metal patrulham as ruas, a felicidade é obrigatória, há pílulas e comprimidos para todos os gostos, os espectadores representam papéis em falta nas peças servidas à la carte e nos cafés as jukeboxes foram substituídas por joke-boxes. Não andamos longe desta alegria obrigatória, a despeito de horas intermináveis de trágica realidade. O Instagram, a mais bem-disposta de todas as redes sociais, não nos oferece senão esse mundo satisfeito dos abraços, das flores, da boa gastronomia, da cor, do amor, mesmo que depois as mesmas pessoas que são todas sorrisos no Instagram vão para o X despejar o ódio que as consome e passem pelo Facebook para partilhar um pensamento profundo e paradoxal do tipo “perco-me de me encontrar” ou “o mundo é uma folha sem avesso” ou “como é negra a luz que ilumina a noite clara”, etc. Para além disto, de facto e de jure, a realidade é um comboio de frases feitas, cumprimentos furtivos, uma sucessão de concessões para, enfim, evitar chatices, sim senhor, porque cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas e eu já não estou para me chatear. Quem vier atrás, que fecha a porta. Estou ligado.
terça-feira, 21 de abril de 2026
ESTAR ON
Em “Fahrenheit 451” os bombeiros ateiam fogos em vez de os combaterem, cães-polícia de metal patrulham as ruas, a felicidade é obrigatória, há pílulas e comprimidos para todos os gostos, os espectadores representam papéis em falta nas peças servidas à la carte e nos cafés as jukeboxes foram substituídas por joke-boxes. Não andamos longe desta alegria obrigatória, a despeito de horas intermináveis de trágica realidade. O Instagram, a mais bem-disposta de todas as redes sociais, não nos oferece senão esse mundo satisfeito dos abraços, das flores, da boa gastronomia, da cor, do amor, mesmo que depois as mesmas pessoas que são todas sorrisos no Instagram vão para o X despejar o ódio que as consome e passem pelo Facebook para partilhar um pensamento profundo e paradoxal do tipo “perco-me de me encontrar” ou “o mundo é uma folha sem avesso” ou “como é negra a luz que ilumina a noite clara”, etc. Para além disto, de facto e de jure, a realidade é um comboio de frases feitas, cumprimentos furtivos, uma sucessão de concessões para, enfim, evitar chatices, sim senhor, porque cá vamos indo com a cabeça entre as orelhas e eu já não estou para me chatear. Quem vier atrás, que fecha a porta. Estou ligado.
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