Regresso à Fábrica Braço de Prata numa deambulação de
salas com término nas gravações caseiras de um tal Mario Perez. Cubano exilado
em Nova Iorque, segundo o curador deste Cinema Invisível. Sinto certa
resistência em chamar-lhe cinema, são imagens perdidas entre o fetichismo e o
narcisismo de quem perspectiva o mundo através de uma lente. Arquivo pessoal em VHS, retalhado por alguém que terá construído uma linha narrativa ou cronológica infiel à espontaneidade do próprio registo. Documento
eventualmente interessante sobre a cena gay nova-iorquina num determinado
período, anos de 1990 para diante, mas que pouco mais tem a oferecer. Ocorrem-me as minhas próprias gravações, horas de fita engavetadas em múltiplas cassetes que, muito provavelmente, nunca mais voltarei a usar. Tenho de me desfazer daquilo tudo, não deixar rastro de nada, queimar o que julgava relevante e por isso registei. Passados todos estes anos, constata-se nada haver ali que faça alguma falta ao mundo. O ideal será sair de mansinho. Noutra sala,
tocava-se jazz. Reconheci o Resende ao piano e o Frazão na bateria, entre três jovens músicos que não fiquei para ouvir. Isolada numa mesa, uma
jovem branca com penteado afro bebia sozinha uma garrafa de vinho. Eis um retrato do que realmente faz falta ao mundo. Terá alguém registado aquele momento?
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