Regresso a Nietzsche em registo informal, ladeado por um tanque como aquele em que tomava banho quando era puto e um cão verdadeiro que parece de louça. O Nietzsche de “Aurora”, o primeiro, inspiradora das vanguardas que se encarregaram de atacar e de destruir os velhos valores herdados de séculos sobre séculos de tradição judaico-cristã. O do eterno retorno, a lembrar-nos que cada gesto carrega em si mesmo o desejo de se repetir. Mais do que o super-homem, emancipado da axiologia ancestral, dos sistemas morais caducos, capaz de criar e reger-se pelos seus próprios valores, interessa-me o niilismo enquanto princípio do absurdo que nos torna conscientes da efemeridade e, por isso mesmo, obriga ao máximo aproveitamento da vida: «os fins caiem-nos dos olhos como escamas». Filósofo, poeta, músico, este homem que a sífilis enlouqueceu, fazia também o elogio da solidão, isto é, da emancipação que nos torna sós num mundo contrário à liberdade individual. O preço a pagar por ser livre: acabar só. Meti isso num micróbio. Já lá vai. (Casa Bernardo, Caldas, 20 de Maio de 2026)

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