Não gosto da palavra
espectáculo, nunca gostei. Infelizmente, vejo-me a pronunciá-la vezes sem conta
nos últimos tempos. Defeitos de ofício. Tudo o que repousa na palavra
espectáculo repugna-me, dos egos inflamados do criador em busca de aplausos à
ritualística pose dos espectadores que se levantam a bater palmas enquanto cospem
bravos da sala para a cena. As pessoas não deixam de ser pessoas por se
deslocarem do quarto para a cozinha, a intriga move-as, a perspectiva de
sucesso motiva-as, a vaidade alimenta-as, a concorrência transforma-as, e no
fim resta pouco mais do que castelos de areia enquanto adornos de uma vida que
é sempre de passagem. Por outro lado, chegar a casa e sentar-me a ouvir “Hunky
Dory”, gravado ainda eu não era nascido, leva-me a pensar que a hipótese de
vida em Marte não tornaria melhor a certeza de vida na Terra. Isto é o que é, o
dever único que se nos impõe é encontrar maneira de ser, pelo menos, um pouco
mais agradável, ou seja, não cairmos nós também na teia de ambições que nos
enoja, aprender a caminhar sob as areias movediças do pântano em que vemos
afundarem-se os ricos de espírito. Bowie deixou antes de morrer uma lição chamada
“Blackstar”, ele que andou por baixo, pelo meio, por cima, sempre a escrever
canções mais sólidas do que castelos de areia. Tem a eternidade garantida. O último disco,
revelado pouco antes da viagem derradeira, é uma lição de aprendizagem da
morte, objectivo de qualquer ser humano neste mundo segundo ensina o “Fédon”. E vem tudo numa estrofe do tema que
oferece título ao conjunto: «I can't answer why (I'm a blackstar) / Just go
with me (I'm not a film star) / I'mma take you home (I'm a blackstar) / Take
your passport and shoes (I'm not a pop star) / And your sedatives, boo (I'm a
blackstar) / You're the flash in the pan (I'm not a marvel star) / I'm the
great I am (I'm a blackstar).» E é isto, somos estrelas negras. Poalha
que por aí ficará a pairar para lá de qualquer foco luminoso.
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