sexta-feira, 26 de junho de 2026

MÃE DO OUTRO LADO DO ESPELHO

 
Escuro. A luz sobe muito lentamente sobre uma figura central. A pouco e pouco, apercebemo-nos de uma mulher idosa em cena, sentada numa poltrona grená, a segurar um búzio junto a um dos ouvidos. Ao lado da poltrona, repousa uma cana de pesca.

Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
26 de Janeiro de 2021. Não recordo há quanto longe minha mãe morreu.
Esqueci-me do som da sua voz. Guardas a voz de minha mãe?
Mal a compreendo no reflexo das águas do meu tempo, parece-me tudo tão vago, não há um único contorno definido, definitivo.

A mulher pousa o búzio no chão. Pega na cana de pesca e lança o fio na direcção do público.

Mãe, onde estavas quando eu morri?
Ouviste-me gritar enquanto me vestiam aquelas roupas idiotas e pediam que posasse para a fotografia com um crucifixo nas mãos? Terás escutado as minhas preces?
O padre Armando dizia: com dois pais nossos e três avé-marias isso passa.
Ajoelhei-me logo ali, à saída do confessionário, e rezei na esperança de que me ouvisses. Mas tu não ouviste, estavas demasiado atenta aos pormenores para que pudesses ouvir-me.

O fio da cana de pesca treme.

O quê?
Quem és tu que mordeste o isco invisível das minhas dores?
Desculpa, mãe, tu não tens culpa pelas minhas culpas.
És tu, peixe da minha infância?

A mulher gira a manivela, olha o anzol, sorri.

Vês mãe, continuas sob o reflexo das águas, invisível como sempre. Não há meio de morderes o isco.
Seremos o isco do tempo, mãe?
Eu rezo, eu oro, suplico, imploro: olha para mim.

Volta a lançar o fio na direcção do público.

Só queria que olhasses para mim, não que olhasses por mim, bastava-me que olhasses para mim. E que visses, que dissesses qualquer coisa, que por um momento te aproximasses medindo as bainhas das avé-marias e dos pais-nossos com que era suposto limparmos o corpo.
Ouves-me no reflexo das águas?
Vês-me no silêncio dos búzios?
Voltei-me para o mar à espera de ser salva por um naufrágio, de uma baleia que me engolisse e vomitasse, de um silêncio que me calasse. Agora estou velha, não digo coisa com coisa, não penso coisa com coisa, não faço coisa com coisa. Tenho a tua ausência dentro de mim e o homem de saias continua a dizer-me: reza que isso passa.
E eu rezo, mas não passa, não há meio de passar.

O fio da cana de pesca treme. A mulher gira a manivela, observa o anzol, sorri.

Nada.
Ninguém.

A mulher morde o isco, gira a manivela, tenta pescar-se a si mesma. Gira a manivela sem parar, luta consigo própria, puxa-se, resiste a si mesma, cospe o isco, larga a cana, senta-se exausta. Acalma a respiração. Passa algum tempo em silêncio. Volta a pegar no búzio, retomando a posição inicial.

Que me dizes, velho companheiro?
Não te entendo.
Calas-te?
Já lá vai o tempo em que as ondas falavam e pelo ar viajavam trazendo notícias de longe.
A que distância estamos de longe?
Já não me recordo há quanto longe morri.
Esqueci-me da cor da minha voz. Esqueci-me do som da minha pele.
Guardas a pele de minha mãe?
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
O que diz ela?
Eu rezo e não passa.
Podes repetir?
Eu rezo e não passa.

Sem comentários: