sexta-feira, 12 de junho de 2026

UM SONHO DE BERNARD RÉQUICHOT

 


   Sonho do dia 4 de Agosto, continuação.
   a minha mãe, sentada não muito longe de mim, insistiu veementemente para que eu continuasse a tomar os medicamentos. Respondi-lhe que ela não era ninguém para me dar lições. O padre Coudert aproximou-se de nós e também me recomendou um medicamento de nome desconhecido. Uma longa chave inglesa de aço fino saía do meu bolso: eu não estava nada confuso, pois era o único a saber que essa chave inglesa tinha sido a minha pila.
   Depois, eu estava na rue Féray, em Corbeil, e cruzei-me com o meu pai, que me disse para onde ia. Entrei no jardim de casa; um homem suspeito seguia-me: polícia, ladrão, assassino? Foi no meu encalço, tirei da caixa de correio um calhau que talvez fosse de gesso e atirei-lho à cara; a pedra não caiu, ficou-lhe pousada no nariz, parecendo até que se transformava em carne. Perante tal prodígio, senti-me impotente e compreendi que a morte estava a chegar. Mas também compreendi que, para me libertar da minha preocupação, nada melhor do que não temer a morte; saindo do jardim, atiro-me para a frente de um camião em movimento, ou terá sido o camião que se atirou para cima de mim? Não importa! Atravessei o camião radiante como um espírito puro. Estava banhado por uma onda de felicidade. Uma luz intensa acordou-me.
   Ela, a Isolda, a Beatriz, a Ofélia dos teus sonhos, hoje mensageira de um mundo desconhecido, ela que te parece ser a fada, a aurora de um novo dia, ela que é bela, mas talvez apenas para ti e somente enquanto durarem as rosas, o que será ela para ti, após a 365ª noite de amor, além de uma carne familiar? Uma propriedade legítima, um bem imóvel, pouco mais do que um  armário e quase tanto quanto um gato? Um material utilizável para prazeres sem alegria, alívios sem felicidade, hábitos desprovidos de poesia que terão perdido todo o encanto das coisas desconhecidas, proibidas ou raras. A tua 365ª noite de amor pesar-te-á em lassidão, qualquer que seja a tua ternura por essa carne contra a tua carne, quaisquer que sejam as tuas palavras: meu amor, meu coelhinho, meu chuchuzinho; gentilezas de que te cansarás, do rápido que se desgastam essas palavras que nos levam a dizer... «o amor consiste em poder sermos parvos juntos».
   Nessa altura, as horas mais belas da tua vida não serão mais do que o leitmotiv das velhas histórias que contarás aos teus amigos e que a tua mulher saberá de cor; não guardarás mais no fundo de ti senão o amargo arrependimento de já teres tido 24 anos, amplificado pelo remorso pesado de teres escolhido tu mesmo a abdicação da tua juventude.

Bernard Réquichot, in Escritos Diversos, tradução de Joana Jacinto, prefácio da historiadora de arte Claire Viallat-Patonnier, Barco Bêbado, pp. 148-149.

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