segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A ODISSEIA

 


Será um erro ver "A Odisseia", de Christopher Nolan, à espera de uma adaptação cinematográfica de "A Odisseia", de Homero, livro que, em boa verdade, até podem ter sido dois: a história de Telémaco em busca do pai (Telemaquia) e a história de Odisseu, veterano da guerra de Troia, de regresso a Ítaca, onde a família o espera há 20 anos (Odisseia). Há imensos episódios no clássico que escapam ao filme, alguns sem perdão, como, por exemplo, o encontro de Odisseu com sua mãe, Anticleia, no Hades. Cada leitor de Homero terá as suas reclamações a fazer, mas o filme de Nolan torna-se insuportável em domínios que pouco têm que ver com liberdades no argumento. A paisagem é asséptica, para não falar da ausência de vinha. Polifemo, o cíclope, parece saído de um filme de terror dos anos 80, desprovido de qualquer diálogo com o herói da acção que, nesse episódio, tem aquela deixa original de dizer chamar-se Ninguém. Circe, a bruxa, é made in imaginário Harry Potter, logo ela, com quem Odisseu, o mais ardiloso e aldrabão dos heróis na história da literatura, vai para a cama. Foi desprovida de qualquer densidade psicológica. E a ideia de pôr Odisseu a comer a flor de lótus, que é a do esquecimento, ao mesmo tempo que recorda as suas errâncias na ilha de Calipso, é só estúpida. De resto, Calipso e Odisseu parecem o casal da “Lagoa Azul”. Imperdoável, para mim, é passar-se por cima dos Feaces como se, no original, fossem uma espécie de adereço literário, logo esse povo que se sacrifica para devolver Odisseu a Ítaca. Serem massacrados por Posídon depois de cometerem uma boa acção é coisa que não pode ser ignorada. A vergonha de Odisseu quando se apanha nu diante de Nausícaa e das escravas não é pormenor de somenos importância, nem o desafio que os Feaces lhe fazem nos jogos, nem a comoção que o herói sente ao ouvir os seus feitos cantados por um aedo, nem tantas outras coisas que se passam naquele festim de 4 ou 5 cantos cujo valor simbólico foi completamente esquecido no filme, em prol de uma tentativa de oferecer linearidade a uma narrativa cuja grandeza sobrevive também das incoerências geográficas e temporais. Nolan realizou um filme sobre os conflitos interiores de um vetereno de guerra no regresso a casa, a Odisseia é muito mais do que isso, no limite nem sequer é sobre isso, pois não é sobre nada em geral sendo acerca de tudo em particular, ou seja, é uma obra sobre a qual passaram milhares de anos e, ainda assim, continua a confrontar-nos com a estranheza instaurada entre os planos da vida e da morte, do amor e do ódio, da paz e da guerra, da virtude e do vício, entre outros e demais dilemas, para nos dizer algo que os gregos julgavam essencial: o que importa é alimentar o pensamento com dúvidas. Nolan não oferece dúvidas, prefere as certezas e os lugares-comuns de uma ética e de uma estética à medida dos padrões e dos uniformes destes tempos rendidos à indústria. O paradigma disto está na figura de Agamemnon transformado em Darth Vader, feito à medida de uma história de aventuras usurpada de contradições, paradoxos e enigmas estimulantes para a reflexão e o pensamento. Cinema de mero entretenimento, em resumo.

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