Tomemos como ponto de partida o “teatro da crueldade” idealizado por Antonin Artaud (1896-1948), que, ficando por concretizar, terá tido o mérito de haver sido pensado. Podemos depois passar pelo “teatro épico” e a noção de gestus em Bertolt Brecht (1898-1956), a defesa de um teatro anti-aristotélico (o que quererá isto dizer?) inscrito nas dinâmicas da História. Um teatro socialmente empenhado, portanto, não necessariamente ideológico. Peter Brook (1925-2022) distinguiu um “teatro do aborrecimento mortal” de um “teatro sagrado” de um “teatro bruto” de um “teatro imediato”: «O teatro é a arena na qual pode ocorrer um confronto vivo.» O Espaço Vazio é um livro extraordinário, tanto pelo diagnóstico como peloS exemplos que acompanham o diagnóstico. Vamos ao “teatro pobre” e ao “teatro laboratório” de Jerzy Grotowski (1933-1999) e daremos com o horror da maquilhagem, as limitações do teatro face à televisão e ao cinema, a urgência de recentrar a atenção no actor, «o teatro é um veículo, um meio de análise e exploração pessoal» (dirá Brook a propósito de Grotowski). E para Alain Badiou (1937), o da “ideia-teatro”, «o teatro não dá explicações, mostra.» Um teatro-filosofia, portanto. Jean-Pierre Sarrazac fala-nos do “teatro popular”, com referências ao Théâtre National Populaire de Jean Vilar (1912-1971) e à revista Théâtre Populaire onde escreviam Roland Barthes (1915-1980) e Bernard Dort (1929-1994), explorando a ideia de um “teatro público” ameaçado pela cultura de massas que o liberalismo económico privilegia. Distingue um público-cidadão do espectador-cliente, levando-nos a crer que o ideal seria um espectador-cidadão (não confundir com citadino). Falemos de teatro público, teatro serviço-público ou teatro-cidadão, iremos sempre encalhar na dúvida das dúvidas: quem é o público do teatro? A quem se dirige o teatro ou, mais exactamente, os teatros que hoje se oferecem nas suas múltiplas hipóteses de realização? Todas essas formas de teatro não escapam a um denominador comum, a necessidade sentida pelas pessoas do teatro de o reflectirem no contexto social e económico em que se inscrevem, tantas vezes parecendo confundir a ideia de serviço-público com serviço prestado aos públicos. Sarrazac lembra que o teatro-crítico propunha não só uma crítica do teatro como uma crítica à crítica de teatro. Por necessidade de sobrevivência, eis os limites impostos à reflexão: o tempo em que estamos. Ora, não seria preferível não impor limites, isto é, reflectir para lá das necessidades imediatas? Talvez com esse exercício almejássemos respostas menos imediatistas no seu pragmatismo e, porventura, menos desencantadas, o que não significa que sejam utópicas (e se forem?). Hoje dá a sensação de já tudo ter sido experimentado e, no entanto, fica igualmente a sensação de estar tudo por fazer, nomeadamente no que diz respeito à formação de cidadãos críticos que prefiram a reflexão ao entretenimento, ou, ultrapassando tais dicotomias, cidadãos que se divirtam a pensar. O teatro elitista para todos, de Antoine Vitez (1930), é um achado. O desafio será em aqueles que fazem teatro não se subordinarem a uma tipificação do receptor a que se dirigem, partindo do princípio que o público de teatro seja composto por uma diversidade resistente a qualquer tentativa de padronização. Talvez não exista um público de teatro, mas sim pessoas que vão mais ou menos esporadicamente, mais ou menos repetidamente, ao teatro, os infiéis e os fiéis, participando de experiência teatrais mais ou menos activamente, mais ou menos passivamente. Portanto, recentre-se a reflexão teórica num campo que não esteja tão preocupado com quem vê, mas antes com aquilo que se pretende dar a ver. Ou mostrar, como diria Badiou. Teatro épico, teatro da crueldade, teatro impossível, não-teatro, teatro pobre, teatro experimental, teatro performativo, teatro de texto? Como tivemos oportunidade de ver, Antoine Vitez (1930) encenou três vezes “Electra”, a tragédia de Sófocles, em 1966, 1971 e 1986, toda as encenações consideravelmente diferentes umas das outras. Só o texto foi sempre o mesmo. Terá o público sido sempre o mesmo? Quem viu a encenação de 66 teria pensado o mesmo se antes tivesse visto a de 86? Quem viu a de 71 e depois foi ver a de 86, manteve a mesma leitura do que viu? Gosto de pensar que tudo o que já foi feito ficou por fazer. A desenvolver: «O teatro oferece reparação». (apontamentos após leitura de “Crítica do Teatro, da utopia ao desencanto”, tradução de Alexandra Moreira da Silva, Bicho-do-Mato, Teatro Nacional D. Maria II, Setembro de 2024)

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