quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ELOGIO DO AEDO

 


Fémio, filho de Térpio, é poupado por Odisseu no episódio do massacre dos pretendentes. Telémaco intercede por ele junto do pai, depois do aedo suplicar de joelhos: «Para ti próprio virá a desventura, se matares o aedo: / eu mesmo, que canto para os deuses e para os homens. / Sou autodidata e um deus me pôs no espírito cantos / de todos os géneros: sou a pessoa certa para cantar ao teu lado, / como se fosses um deus. Por isso, não desejes degolar-me» (trad. Frederico Lourenço, Quetzal, 2018). Mais do que as palavras de Telémaco, sublinhando que o aedo era forçado a cantar para os pretendentes, algo que ficamos logo a saber no Canto I - «O arauto colocou uma lira de insigne beleza nas mãos / de Fémio, ele que cantava para os pretendentes por necessidade.» -, impressiona o tom da súplica do próprio Fémio, profetizando a desventura de Odisseu se matasse aquele a quem os deuses puseram cantos no espírito.
A relevância do aedo não será ingénua num poema escrito para ser dito, mas ela percorre toda a Odisseia levando-nos a crer que, a despeito do interesse de quem dizia, havia o reconhecimento do ouvinte quanto ao papel determinante desta figura: «Cantava para eles o célebre aedo, e eles em silêncio / estavam sentados a ouvir» (Canto I). Eles são o público que hoje se esquece amiúde de desligar os telemóveis e vai desembrulhando rebuçados no decorrer da récita. Enfim, naquele tempo talvez fizessem coisas ainda mais desagradáveis. Mas lembremos, entretanto, que o próprio Odisseu é várias vezes comparado a um aedo, tantas vezes referido na companhia do epíteto “divino” (divino aedo): «Contaste a história com a perícia de um aedo» (diz Alcínoo a Odisseu) ou, mais extraordinariamente no Canto 21, «Assim falavam os pretendentes; mas o astucioso Odisseu, / após ter levantado o grande arco e de o ter examinado, / tal como um homem conhecedor da lira e do canto / facilmente estica uma corda a partir de uma cravelha nova, / atando bem a tripa torcida de ovelha de um lado e de outro - / assim sem qualquer esforço Odisseu armou o grande arco.» Convenhamos que não será para qualquer um comparar a perícia de um arqueiro, para mais um herói de Troia, aos talentos de um aedo.
No entanto, é quando Odisseu está entre os Feaces, estadia completamente ignorada no filme de Christopher Nolan, a ouvir o divino e exímio aedo Demódoco, amado pela Musa, porém cego de doce canto, que nos apercebemos melhor da relevância desta figura. Cantando as façanhas dos heróis, o aedo faz perdurar no tempo os exemplos do passado através da memória reavivada nas palavras. É assim que Odisseu se vê ali relembrado, sem que ninguém saiba estar na sua presença, entre outros que já partiram, tais como Aquiles ou Agamémnon. Odisseu tem então um vislumbre de como a história o conservará. Não admira que esconda as lágrimas levado pela emoção, nem que depois brinde o aedo com uma fatia de javali mostrando-lhe enorme apreço: «(...) entre todos os homens que estão na terra, os aedos / granjeiam a reverência: a eles ensinou a Musa / o canto porque estima as tribos dos aedos» (Canto 8).
O estatuto do aedo ficará elucidado quando, no Canto 17, o veremos comparado pela utilidade pública a um demiurgo, um vidente, um médico ou um carpinteiro. Era, portanto, figura central na vida em comunidade, equiparável pela utilidade pública às mais relevantes profissões, comparável a um herói como Odisseu que, passados 3000 anos sobre a história desta humanidade, ainda anda por aí nos ecrãs e nos livros a ser lembrado e recriado de inúmeras maneiras. Odisseu teria caído no esquecimento sem Homero, seja lá quem tiver sido Homero, que, já agora, não seria quem é sem Odisseu e outros que cantou. Eis-nos diante de um panegírico da criação artística concebido no séc. VII ou VI a.C., chapada de luva branca na boçalidade que, em 2026, equipara a cultura ao mendigo que pede esmola.  

Sem comentários: