Por vezes o cansaço é tanto que a concentração dispersa, leva-nos para paragens ruidosas que fazem ansiar por silêncio e solidão. O pântano da mundanidade, chamemos-lhe assim, obriga-nos a estar com quem não queríamos estar, a falar com quem preferíamos não ouvir, a calar, a engolir, e o corpo desequilibra-se e a cabeça dispersa e o caos instala-se. Fechar os olhos, como nos anos 90 ensinava a banda de Stuart A. Staples. Chorar não choro, é raro, ou choro por razões inadvertidas, pueris, uma cena num filme comovente, algo lido que desperta sentimentos recalcados, a memória do perdido ou daqueles que, sem estarem perdidos, a distância como que matou. Por vezes vasculho em cadernos antigos a tentar reencontrar uma caligrafia menos saturada, a caligrafia de um corpo protegido das víboras e dos ratos, da peçonha desses olhos dentados que mordem sem nos tocar. O que é feito da alegria de viver? Onde se meteu ela? Ainda sorrimos, é certo, mas no sorriso contorcem-se os nervos e uma espécie de amargura toma-nos conta da boca. O mais estranho é estarmos cientes dos perigos acarretados pelo envelhecimento. Neste momento, neste preciso momento, falham as palavras, o teclado parece ter as teclas fora do lugar, o abecedário todo baralhado. Em boa verdade, tudo parece fora do lugar e o mais estranho é talvez ser esse o lugar mais apropriado das coisas. Entre o primeiro álbum dos Tindersticks e Simple Pleasure, de 1999, passaram seis anos cruciais: o esgotamento, os ataques de pânico, a depressão. Iniciado um novo século, esforçámo-nos por esconder a dor silenciosa da insatisfação. Hoje alguém disse “genial” e foi como se nada, nenhum prazer retirado do elogio, nenhuma consolação. Resolvi, então, regressar à banda britânica na esperança de reencontrar, pelo menos, um certo conforto na melancolia das canções, uma orquestração capaz de embalar o tédio. Vou continuar a tentar.

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