A Resistível Ascensão de Arturo Ui (1941). Chicago,
ambiente gangster, tráfico de couve-flor. Brecht chamou-lhe parábola,
introduzindo letreiros que tornavam óbvio tratar a história da ascensão do nazismo.
Estão lá Paul von Hindenburg, o incêndio do Reichstag, a promiscuidade entre os
negócios e a política, a execução de Ernst Röhm... Heiner Müller encenou a
peça, transformando-a consideravelmente a favor de uma parábola kafkiana que protestava
contra o didactismo de Brecht. Mas não será também a encenação de Müller
didáctica? Se não temos os letreiros, temos a figura de Hitler logo plasmada na
incrível interpretação de Martin Wuttke. E a figura do SS torna mais do que evidente
sobre o que trata a parábola, para não referir os gestos, a caracterização,
todo um conjunto de elementos que remetem para esse período da história alemã.
No que Müller foi mais ousado e, por isso, genial, foi no modo como trouxe à
superfície as raízes históricas por detrás dos factos sombrios da ascensão do nazismo.
A peça passou a ser igualmente sobre uma hipótese de identidade alemã, polvilhada de
referências que vão de Goethe a Wagner, para não dizer que é sobre uma
identidade universal: a da política subsumida ao tráfego de influências, negociata, gangsterismo. Aí temos Trump, Putin, Netanyahu, em 2026, a
mostrarem mais uma vez como se faz. E os lacaios de joelhos de hoje não são
diferentes dos de ontem. A história pode não repetir-se, mas a condição humana
não muda.
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