terça-feira, 29 de setembro de 2026

A RESISTÍVEL ASCENSÃO DE ARTURO UI

 
A Resistível Ascensão de Arturo Ui (1941). Chicago, ambiente gangster, tráfico de couve-flor. Brecht chamou-lhe parábola, introduzindo letreiros que tornavam óbvio tratar a história da ascensão do nazismo. Estão lá Paul von Hindenburg, o incêndio do Reichstag, a promiscuidade entre os negócios e a política, a execução de Ernst Röhm... Heiner Müller encenou a peça, transformando-a consideravelmente a favor de uma parábola kafkiana que protestava contra o didactismo de Brecht. Mas não será também a encenação de Müller didáctica? Se não temos os letreiros, temos a figura de Hitler logo plasmada na incrível interpretação de Martin Wuttke. E a figura do SS torna mais do que evidente sobre o que trata a parábola, para não referir os gestos, a caracterização, todo um conjunto de elementos que remetem para esse período da história alemã. No que Müller foi mais ousado e, por isso, genial, foi no modo como trouxe à superfície as raízes históricas por detrás dos factos sombrios da ascensão do nazismo. A peça passou a ser igualmente sobre uma hipótese de identidade alemã, polvilhada de referências que vão de Goethe a Wagner, para não dizer que é sobre uma identidade universal: a da política subsumida ao tráfego de influências, negociata, gangsterismo. Aí temos Trump, Putin, Netanyahu, em 2026, a mostrarem mais uma vez como se faz. E os lacaios de joelhos de hoje não são diferentes dos de ontem. A história pode não repetir-se, mas a condição humana não muda.  

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