sexta-feira, 18 de junho de 2004

CEREJAS


Cerejas
poemas de amor de autores portugueses contemporâneos
Selecção e organização de Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes
Abertura de Eduardo Lourenço
Posfácio de António Ramos Rosa
Editorial Tágide / Câmara Municipal do Fundão
Junho de 2004

Os samurais, p. 203; Cais, p. 204.

O VAGABUNDO DO DHARMA

Han-Shan chega a Portugal numa belíssima edição da Cavalo de Ferro, com tradução de Ana Hatherly. É importante começar por realçar o extremo e inquestionável gosto estético desta edição que faz acompanhar o original de cada poema, à semelhança do que acontecia na edição francesa, por uma versão em caracteres modernos, uma tradução literal e uma versão poética. Dado o carácter aberto e subjectivo da tradução, torna-se quase irresistível ao leitor arriscar a sua própria construção do poema como se de um lego se tratasse. Ana Hatherly, no prefácio, fala justamente do acto de traduzir estes poemas como uma "re-invenção" ou uma "reciclagem". Estamos, portanto, não apenas perante um mero livro, no sentido convencional, mas também perante a possibilidade de transformar a leitura numa espécie de jogo poético. Não se sabem ao certo muitos dados biográficos acerca deste poeta chinês, cuja vida inspirou ao longo dos séculos imensas histórias tão lendárias quão verosímeis. No prefácio à edição francesa dos "25 poemas de Han-Shan" (1974), da responsabilidade de Jacques Pimpaneau, refere-se a probabilidade de ter vivido no século VII, mas há quem o situe entre os anos de 630 e 830. Poeta eremita da dinastia Tang, foi ganhando com o tempo a fama de indivíduo excêntrico, louco asceta, espírito rebelde. Em suma, um espírito livre. E é precisamente esse espírito independente o que mais se reflecte na sua poesia: "Não desejo o caminho do mundo / Sua paixão não me atrai". Porém, talvez não seja má ideia começarmos por enquadrar a sua poesia no significado que terá tido no ocidente. O século passado foi profícuo em vanguardas literárias e artísticas que se estruturaram a partir de alicerces legados pelas mitologias ancestrais. Estou em crer que uma compreensão mais profunda de certas correntes literárias não pode deixar na penumbra tais aspectos, estejam eles mais ou menos evidenciados nas obras dos autores que constituíram esses mesmos movimentos. Tome-se, a título de exemplo, o surrealismo. Será possível compreendê-lo nas suas profundezas sem pensar o quão impregnado está dos mais diversos misticismos, hermetismos e mitologias? Julgo que não. Vejam-se as obras de Artaud, António Maria Lisboa, no caso português, ou, noutro contexto expressivo, Max Ernst. Está nelas presente todo um universo simbólico, linguístico e metafísico que remete directamente para um passado longínquo, repleto de imagens e conceitos mitológicos. Outro exemplo paradigmático é o da "beat generation", fulgurante em meados do século passado nos Estados Unidos da América do Norte, de onde saíram escritores como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Neal Cassady. Encontramos nessa geração de escritores toda uma atitude Zen que virá a desembocar na subcultura "hippy", no culto da liberdade e do despojamento material. Se foi o tradutor inglês Arthur Waley quem introduziu no ocidente o poeta chinês Han-Shan, terá sido Gary Snyder, um outro "beatnick" famoso, quem mais se deixou por ele impressionar, levando-o à letra na sua própria vida. Tal como não me parece possível compreender com profundidade o surrealismo sem o perspectivar na reforma de uma herança mitológica, também me parece difícil penetrar nos verdadeiros motivos da "beat generation" omitindo o papel fulcral que o Budismo Zen aí terá representado. Será precisamente neste universo criativo que a voz de Han-Shan mais ecoará a ocidente. Se ontologicamente não anda muito distante dos princípios confucionistas, esteticamente terá sido assaz revolucionário para a época. Percebe-se na sua poesia, obviamente por via da tradução aqui levada a cabo, uma linguagem descomplexada e livre: "Meu coração lua de Outono / Verde lago brilhante imaculado puro". Porém, o que mais impressiona é como todo um conjunto de imagens, por vezes quotidianas, se interpenetra com uma reflexão sobre a essencialidade das coisas vividas: "Hoje meditei numa distante falésia / Depois de muito tempo bruma e nuvens retiram-se // Um só caminho: o curso da fria água clara / Ao longe o cimo dos montes verdejantes // Calma a sombra matinal das nuvens brancas / A luz do luar brilhante flutua // No meu corpo não há pó nem sujidade / Porque está meu coração inquieto?" A contemplação do "tempo que passa docemente" aparece, assim, na poesia de Han-Shan, como o fundamento de uma proposta de libertação da materialidade para uma "vida humana" mais espiritual em comunhão com a natureza. E a questão fundamental ficará em aberto: "Quem consegue desligar-se do mundo / E sentar-se comigo no meio de nuvens brancas?"

Escrito para o Canal de Livros.

quarta-feira, 2 de junho de 2004

CEREJAS - Poemas de Amor de Autores Portugueses Contemporâneos

 


OS SAMURAIS
 
Os samurais subiam às cerejeiras
penduravam-se nos ramos
até darem flor
esmagavam as cerejas como quem quebra nozes
no dorso da mão
e besuntavam o corpo com o suco da polpa
para ficarem mais próximos do sangue
 
depois
cuspiam os caroços até perfurarem a carne
no sentido do coração
 
É bom saber que o ritual permanece vivo
que os poetas continuam a descer à página
para aí
esmagarem poemas
como quem amassa frutos
 
É bom saber que as folhas afiadas de versos
ainda nos podem lavrar o sangue
no sentido do coração
 
*
 
CAIS
 
Agora que embarcados rumamos ao sol nascente
na traineira que outrora sabíamos abandonada
talvez se aproxime de novo a luz que nos separou
 
porque o amor não é apenas o outro lado do ódio
é também uma calha de afectos e reencontros
ainda que no cais onde ancorámos a solidão
tenha ficado para sempre o medo de sermos um
 
Agora que embarcados rumamos ao sol nascente
naufraguemos de novo os corpos num mar de cetim
para que não mais a luz se dispa da sombra
para que não mais os dedos sangrem de espera
 
 
Henrique Manuel Bento Fialho, in “CEREJAS -  Poemas de Amor de Autores Portugueses Contemporâneos”, antologiados por Gonçalo Salvado, com imagens seleccionadas por Maria João Fernandes, abertura de Eduardo Lourenço, posfácio de António Ramos Rosa, Editorial Tágide, Junho de 2004, pp. 203-204.
 
Poemas de: Rita Taborda Duarte, Nuno de Figueiredo, Joaquim Cardoso Dias, Orlando Neves, Fiama Hasse Pais Brandão, João Pedro Mésseder, Gonçalo Salvado, Maria João Fernandes, Eugénio de Andrade, Ruy Belo, Cristovam Pavia, Maria de Lourdes Hortas, José Manuel Mendes, José Bebiano, António Gedeão, Victor Oliveira Mateus, Pedro Homem de Mello, José Acácio Castro, Miguel Torga, Dinis Guarda Vindeirinho, Francisco Duarte Mangas, Edgar Carneiro, Luís Filipe Maçarico, Armindo Rodrigues, Mário Dionísio, Sandra Costa, Maria Teresa Dias Furtado, Ana Rita Calmeiro, Pedro Tamen, Ana Hatherly, Casimiro de Brito, Natália Correia, José Carlos Gonzalez, Maria do Sameiro Barroso, Rosa Lobato Faria, Isabel Cristina Pires, Joaquim Pessoa, Miguel Barbosa, Lídia Jorge, João Rui de Sousa, António Salvado, Fernando Echevarria, Flor Campino, Maria Teresa Horta, E. M. de Melo e Castro, Vasco graça Moura, Henrique Levy, Maria de Lourdes Belchior, Albano Martins, Teixeira de Pascoaes, Carlos Lopes Pires, Sebastião Alba, Nuno Júdice, António Garcia Romão, Ruy Ventura, José Correia Tavares, José Carlos de Vasconcelos, Manuel Silva Terra, Luís Filipe Borges, Vitorino Nenmésio, Pedro da Silveira, Artur Cruzeiro Seixas, Pedro Mexia, Alexandre O’Neill, José Carlos Ary dos Santos, Francisco José Viegas, João Camilo, Henrique Manuel Bento Fialho, Fernão de Magalhães Gonçalves, Sophia de Mello Breyner Andresen, Liberto Cruz, Maria Amélia Neto, Paulo Ramalho, José Jorge Letria, Egito Gonçalves, Rosa Alice Branco, Amélia Vieira, Matilde Rosa Araújo, Teresa Balté, Adília Lopes, Fernando Grade, Fátima Maldonado, Al Berto, José Gomes Ferreira, A. M. Pires Cabral, António Ramos Rosa.
 
Desenhos de: José de Guimarães, Ângelo de Sousa, Ana Hatherly, Gonçalo Salvado, José da Conceição, Júlio, Júlio Resende, Luís Darocha, Maria Gabriel, Ribeiro Farinha, João Cutileiro, Graça Moraes, Carmo Pólvora, António Ramos Rosa, Miguel Barbosa, Francisco Simões, João Moniz, Ambrósio, António Garcia Romão, António Carmo, Fernando Grade, Laura Cesana, Dorindo de Carvalho, Henrique Mourato, Leonel Moura, Isabel Lhano, Siza Vieira, José Rodrigues, Maria João Fernandes, Lima de Freitas, José Alberto Reis Pereira, Júlio Pomar.