Aprecio o modo como a editora Objecto Cardíaco se atirou ao mercado literário nacional. O pano de fundo do sítio da editora, ilustrado por uma imagem de Luís Melo, deixa bem clara a intenção de alfinetar o que há muito cheira a podre de tão bonançoso. Saúde-se, então, a postura. Postura essa que, infelizmente, não afiança a mesma saudação quando se trata de avaliar a qualidade de algumas das obras editadas. Conselhos aos Jovens Literatos, de Charles Baudelaire (1821-1867), em tradução e anotação de Jorge Melícias, carece de um enquadramento histórico jamais reduzível a uma pobre sinopse biográfica e a uma nota cujos objectivos são todos e mais alguns excepto esclarecer a obra em causa. É pena que assim seja, pois o que poderia ser pretexto para debate e reflexão - práticas cada vez mais difíceis numa época dominada por mesquinhas ambições -, esgota-se na boca foleira e na inanidade do espalhafato. Se o estilo, pela obstinação, é engraçado, já o recheio parece inexistente. Vamos à obra. Sobre a tradução, nada a dizer. Apenas que tratando-se de uma edição bilingue, ficará ao critério de cada um averiguar dos méritos e dos deméritos que a mesma possa conter. Conselhos aos Jovens Literatos: IX aforismos, editados pela primeira vez em Abril de 1846, sobre temas relacionados, de forma mais ou menos evidente, com a vida literária: I – Da felicidade e do infortúnio nas estreias; II – Dos salários; III – Das simpatias e das antipatias; IV – Da crítica severa; V – Dos métodos de composição; VI – Do trabalho diário e da inspiração; VII – Da poesia; VIII – Dos credores; IX – Das amantes. À data, com 25 anos, Baudelaire tinha estourado metade da herança paterna em prostitutas e haxixe. Incompatibilizado com o padrasto, vê-se a braços com «uma acção judicial que o impede de movimentar o seu património» (Cf. cronologia elaborada por Fernando Pinto do Amaral na edição portuguesa de As Flores do Mal). A resenha biográfica na abertura da edição aqui em causa é completamente omissa quanto a estes aspectos, limitando-se a referir uma tentativa de suicídio «como forma de chamar a atenção de sua mãe e padrasto». Comovente! Conta a história, e não a psiquiatria, que na mesma altura em que procurava afirmar-se como crítico de arte e poeta, Baudelaire tenta suicidar-se. Por carências afectivas? Por desespero? Por falta de mimo? Sejam os factos à vontade do freguês. Excepto este: será na ressaca deste clima que o poeta publicará no Corsaire-Satan, um ano após a tentativa de suicídio, os Conselhos aos Jovens Literatos - textos eivados de um claro cinismo irónico tão em voga nessa época. Interpretá-los de forma literal, assim como abreviar a obra de Baudelaire a IX aforismos, parece-me tão patético quanto contraproducente. Que seria de nós se todos os autores que por aí pululam passassem a resumir-se às obras iniciais ou a aspectos particulares das suas vidas? Será minimamente prudente ignorarmos Os Paraísos Artificiais, As Flores do Mal, O Spleen de Paris, O Meu Coração a Nu, etc., por causa destes curiosos IX aforismos? Jorge de Sena, que não hesitou em apelidar Baudelaire de «escrevinhador», foi peremptório na afirmação de «uma nova era literário-cultural» após a publicação de Les Fleurs du Mal. Mas Jorge de Sena via a coisa como ela deve ser vista. Ou seja, o que estava em causa na obra de Baudelaire era a «autonomia das artes e das letras em relação à religião e à moral». Jorge Melícias fala de um Baudelaire «burguês usurário e sem escrúpulos». Era bom que isto fosse contextualizado. Porque não é, permito-me citar novamente Jorge de Sena: «A reacção contra o academismo, a rotina, e o conservadorismo estéticos das sociedades burguesas ou autocráticas do sistema político do século XIX, exigia uma alteração das estruturas políticas, mas estas teriam de, àquelas personalidades, garantir uma situação social em que, se o artista adquirisse a sua independência crítica e criadora em relação ao sistema de produção capitalista (porque este sistema usava ou podia usar da liberdade dele como dissipação económica marginal), esta não caísse sob o domínio de uma autoridade directamente estatal» (Sobre o Modernismo). Como garantir então o pão para a boca daqueles que se aventuravam a pôr em causa um sistema contra o qual dificilmente teriam «uma alimentação substancial, mas regular»? Quem não quiser ver o tal cinismo irónico na resposta que Baudelaire dá a esta questão, então não veja. A cegueira, como o suicídio, deverá ser um direito adquirido. Mais ridícula se torna a nota de Jorge Melícias quando este se põe a falar de uma das «correntes estéticas» que terá emergido nos «inícios dos anos 90 do século transacto», corrente essa que ter-se-á apropriado ingenuamente (o conceito é meu) de um imaginário baudelairiano. Essa corrente, que eu saiba, tem nome próprio (coisa pouca e rara para uma corrente): Manuel de Freitas (n. 1972). Trata-se do autor de Os Infernos Artificiais, cuja primeira colecção de poemas veio a lume em Setembro de 2000 (atrasada, então, relativamente aos primórdios dos anos 90). Sinceramente, não estou a ver a quem mais possa estar a referir-se o tradutor destes Conselhos... É na poesia de Manuel de Freitas, não de outro, que melhor se reflecte na actualidade a «perda de auréola» baudelairiana, fundadora de «uma nova era literário-cultural» (ver, a este propósito, um texto de Manuel de Freitas intitulado Acima de nada – Uma leitura caótica de «Perte d’ aureole», publicado no n.º 1 da revista Intervalo). Trata-se de uma era que já leva um século às costas, é certo, mas ainda assim mais esclarecida do que outras eras que, há pelo menos tanto tempo como esta, andam a autoproclamar-se de vanguardas. Quanto à política desta corrente, de forma literal e histórica, só pode ser uma: «Não tenho convicções, como o entendem as pessoas do meu século, porque não tenho ambição» (Baudelaire, in O Meu Coração a Nu). É precisamente esta palavra, ambição, o que motiva tanta algaraviada.sexta-feira, 28 de abril de 2006
CONSELHOS AOS JOVENS LITERATOS
Aprecio o modo como a editora Objecto Cardíaco se atirou ao mercado literário nacional. O pano de fundo do sítio da editora, ilustrado por uma imagem de Luís Melo, deixa bem clara a intenção de alfinetar o que há muito cheira a podre de tão bonançoso. Saúde-se, então, a postura. Postura essa que, infelizmente, não afiança a mesma saudação quando se trata de avaliar a qualidade de algumas das obras editadas. Conselhos aos Jovens Literatos, de Charles Baudelaire (1821-1867), em tradução e anotação de Jorge Melícias, carece de um enquadramento histórico jamais reduzível a uma pobre sinopse biográfica e a uma nota cujos objectivos são todos e mais alguns excepto esclarecer a obra em causa. É pena que assim seja, pois o que poderia ser pretexto para debate e reflexão - práticas cada vez mais difíceis numa época dominada por mesquinhas ambições -, esgota-se na boca foleira e na inanidade do espalhafato. Se o estilo, pela obstinação, é engraçado, já o recheio parece inexistente. Vamos à obra. Sobre a tradução, nada a dizer. Apenas que tratando-se de uma edição bilingue, ficará ao critério de cada um averiguar dos méritos e dos deméritos que a mesma possa conter. Conselhos aos Jovens Literatos: IX aforismos, editados pela primeira vez em Abril de 1846, sobre temas relacionados, de forma mais ou menos evidente, com a vida literária: I – Da felicidade e do infortúnio nas estreias; II – Dos salários; III – Das simpatias e das antipatias; IV – Da crítica severa; V – Dos métodos de composição; VI – Do trabalho diário e da inspiração; VII – Da poesia; VIII – Dos credores; IX – Das amantes. À data, com 25 anos, Baudelaire tinha estourado metade da herança paterna em prostitutas e haxixe. Incompatibilizado com o padrasto, vê-se a braços com «uma acção judicial que o impede de movimentar o seu património» (Cf. cronologia elaborada por Fernando Pinto do Amaral na edição portuguesa de As Flores do Mal). A resenha biográfica na abertura da edição aqui em causa é completamente omissa quanto a estes aspectos, limitando-se a referir uma tentativa de suicídio «como forma de chamar a atenção de sua mãe e padrasto». Comovente! Conta a história, e não a psiquiatria, que na mesma altura em que procurava afirmar-se como crítico de arte e poeta, Baudelaire tenta suicidar-se. Por carências afectivas? Por desespero? Por falta de mimo? Sejam os factos à vontade do freguês. Excepto este: será na ressaca deste clima que o poeta publicará no Corsaire-Satan, um ano após a tentativa de suicídio, os Conselhos aos Jovens Literatos - textos eivados de um claro cinismo irónico tão em voga nessa época. Interpretá-los de forma literal, assim como abreviar a obra de Baudelaire a IX aforismos, parece-me tão patético quanto contraproducente. Que seria de nós se todos os autores que por aí pululam passassem a resumir-se às obras iniciais ou a aspectos particulares das suas vidas? Será minimamente prudente ignorarmos Os Paraísos Artificiais, As Flores do Mal, O Spleen de Paris, O Meu Coração a Nu, etc., por causa destes curiosos IX aforismos? Jorge de Sena, que não hesitou em apelidar Baudelaire de «escrevinhador», foi peremptório na afirmação de «uma nova era literário-cultural» após a publicação de Les Fleurs du Mal. Mas Jorge de Sena via a coisa como ela deve ser vista. Ou seja, o que estava em causa na obra de Baudelaire era a «autonomia das artes e das letras em relação à religião e à moral». Jorge Melícias fala de um Baudelaire «burguês usurário e sem escrúpulos». Era bom que isto fosse contextualizado. Porque não é, permito-me citar novamente Jorge de Sena: «A reacção contra o academismo, a rotina, e o conservadorismo estéticos das sociedades burguesas ou autocráticas do sistema político do século XIX, exigia uma alteração das estruturas políticas, mas estas teriam de, àquelas personalidades, garantir uma situação social em que, se o artista adquirisse a sua independência crítica e criadora em relação ao sistema de produção capitalista (porque este sistema usava ou podia usar da liberdade dele como dissipação económica marginal), esta não caísse sob o domínio de uma autoridade directamente estatal» (Sobre o Modernismo). Como garantir então o pão para a boca daqueles que se aventuravam a pôr em causa um sistema contra o qual dificilmente teriam «uma alimentação substancial, mas regular»? Quem não quiser ver o tal cinismo irónico na resposta que Baudelaire dá a esta questão, então não veja. A cegueira, como o suicídio, deverá ser um direito adquirido. Mais ridícula se torna a nota de Jorge Melícias quando este se põe a falar de uma das «correntes estéticas» que terá emergido nos «inícios dos anos 90 do século transacto», corrente essa que ter-se-á apropriado ingenuamente (o conceito é meu) de um imaginário baudelairiano. Essa corrente, que eu saiba, tem nome próprio (coisa pouca e rara para uma corrente): Manuel de Freitas (n. 1972). Trata-se do autor de Os Infernos Artificiais, cuja primeira colecção de poemas veio a lume em Setembro de 2000 (atrasada, então, relativamente aos primórdios dos anos 90). Sinceramente, não estou a ver a quem mais possa estar a referir-se o tradutor destes Conselhos... É na poesia de Manuel de Freitas, não de outro, que melhor se reflecte na actualidade a «perda de auréola» baudelairiana, fundadora de «uma nova era literário-cultural» (ver, a este propósito, um texto de Manuel de Freitas intitulado Acima de nada – Uma leitura caótica de «Perte d’ aureole», publicado no n.º 1 da revista Intervalo). Trata-se de uma era que já leva um século às costas, é certo, mas ainda assim mais esclarecida do que outras eras que, há pelo menos tanto tempo como esta, andam a autoproclamar-se de vanguardas. Quanto à política desta corrente, de forma literal e histórica, só pode ser uma: «Não tenho convicções, como o entendem as pessoas do meu século, porque não tenho ambição» (Baudelaire, in O Meu Coração a Nu). É precisamente esta palavra, ambição, o que motiva tanta algaraviada.sexta-feira, 21 de abril de 2006
UMA CASA NA ESCURIDÃO
Sou um péssimo leitor de ficção. Prefiro o conto e a novela ao romance. Devo ter lido uma dúzia de romances que amei profundamente. Dito isto, os meus considerandos subsequentes, muito mais do que os outros, valerão nada de nada. Os outros valem apenas nada. Acontece também que leio mais ficção estrangeira do que nacional, sendo que as minhas predilecções vão sobretudo para os clássicos. Para começar a redimir-me de cenário tão pobre, peguei num romance de um jovem romancista português cuja poesia tinha lido e apreciado. Resultado: uma leitura penosa, fastidiosa, um tédio tremendo, um cansaço a degenerar numa irremediável desilusão. Refiro-me a Uma Casa Na Escuridão (Outubro de 2002), segundo romance de José Luís Peixoto (n. 1974) depois do aclamado Nenhum Olhar (2000). Dividida em sete partes (O Amor, O Amor É Tudo O Que Existe, As Invasões, O Amor É Impossível, A Peste, O Amor É A Solidão, A Morte), a história de Uma Casa Na Escuridão é-nos narrada pela personagem central: um escritor apaixonado pela imagem, surgida dentro de si, da mulher mais bonita do mundo. O leitor é constantemente remetido para o interior dessa personagem através da repetição exaustiva da expressão «dentro de mim». Esta é, justamente, uma prosa que joga ao cansaço com velhas técnicas de um discurso mais poético: anáforas, repetições e aquele tique de repetir uma palavra, uma frase ou uma expressão no final de uma frase, dando-lhe um efeito de eco ou sublinhando, com enfatuada eloquência, a importância do que está a ser dito: «O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda. O amor é o sentido de todas as palavras impossíveis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor é a paz fresca e a combustão de um incêndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manhã, o céu a deslizar como um rio. À tarde, o sol como uma certeza. O amor é feito de claridade e da seiva das rochas. O amor é feito de mar, de ondas na distância do oceano e de areia eterna. O amor é feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins etéreos, a salvação é uma brisa que cai sobre o rosto suavemente» (p. 25). Este parágrafo, por exemplo, até daria um poema em prosa interessante. Num romance, cheira-me a lirismo supérfluo. Ainda mais quando o parágrafo seguinte repete exactamente as mesmas frases, acrescentando no início a voz do narrador dizendo que acreditava mesmo que o amor era aquilo tudo. Trata-se de um excerto meramente exemplificativo do que menos me agradou neste livro, a par do recurso a um velho dicionário composto de palavras como «angústia e dor e tristeza e sofrimento e mágoa» (p. 160), que não se livra dos lugares comuns mais enjoativos, façam-se eles de antíteses - «sombras de luz dentro da luz» (p. 17) ou «um tempo sem horas, entre as horas» (p. 83) - ou de referências como «o cheiro da terra molhada» (p. 26, 34, 51), «olhos a serem dois poços muito fundos de água límpida» (p. 28), árvores deixando cair folhas amarelas, «como se deixassem cair lágrimas» (p. 29). Mas o pior sucede quando esse arsenal resvala no lamechismo puro e duro: «A minha mãe fraca e bela, linda. A minha querida mãe que me pegava ao colo e que, naquele dia, já eu era homem, já fazia a barba, e achava por isso que era homem, já me apaixonava e padecia por mulheres, e achava por isso que era homem; a minha querida mãe, naquele dia, pousou a mão sobre a minha mão, e eu olhei os seus olhos lindos e castanhos, doces e tão belos de menina, e soube tão profundamente que o nosso amor era mais imutável do que as rochas, do que a montanha, do que o céu todos os dias, todos os dias, todos os dias até ao fim do último fim depois do fim da eternidade» (p. 84). Há nesta prosa de José Luís Peixoto uma confusão voluntária entre os domínios do sonho e da realidade, uma confusão que poderia ser estimulante não fosse o resvalar em lamechices entediantes do género da supracitada. O melhor que se retira de Uma Casa Na Escuridão é um imaginário «gótico», feito de gente mutilada e putrefacta, soldados com roupas de ferro e barba até à barriga, gatos lambendo poças de sangue… É neste contexto que surdem as personagens mais curiosas: o príncipe de calicatri, a quem arrancaram «os mistérios mais profundos da sua sabedoria» depois de «no lugar do coração» lhe terem deixado «um buraco de vermelho vivo» (p. 115); ou o visconde de dedodida, com um «buraco grande e circular que lhe atravessava a barriga», outrora «uma mulher que estava grávida quando as invasões chegaram à cidade» (p. 237); ou, por fim, o «homem que não tinha orelhas e que não tinha olhos e que não tinha nariz e que não tinha língua», sendo por isso chamado de ninguém. (p. 117) Aparte isto, Uma Casa Na Escuridão não me encorajou. Foi mais um romance que terminei após muito, muito, muito, muito tédio. Muito tédio. Muito. Tédio.terça-feira, 18 de abril de 2006
DICIONÁRIO DO DIABO
O primeiro grande livro do ano está encontrado. Pena que tenha aparecido, pela primeira vez, há precisamente um século. Refiro-me à edição portuguesa do Dicionário do Diabo. De Ambrose Bierce (1842-1914), havia lido anteriormente Esopo emendado & outras fábulas fantásticas (Antígona, 1996). O dicionário demoníaco do jornalista americano era há muito motivo de conversa, mas por contingências várias nunca passara disso. Passados dez anos sobre a edição desse Esopo emendado, a editora Tinta-da-China resolve propor-nos uma versão portuguesa condensada, traduzida por Rui Lopes, do mais cínico dos livros que há memória. Digo eu, fã que sou das Palavras Cínicas (1905), do nosso Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), versão, diria, epistolar do que Bierce nos oferece em forma de dicionário. Belíssima edição, em capa rija, com excelentes ilustrações de Ralph Steadman e prefácio esclarecedor de Pedro Mexia: «O que interessa a Bierce não é descrever o mundo tal como é. O mundo tal como é não passa de uma ilusão de óptica, de um engodo social. O mundo não deve ser analisado com frieza científica ou ideológica, deve ser confrontado com os seus vícios numa linguagem viciosa». E no entanto, quem não arriscará, sem cinismo de espécie alguma, ver o mundo através das ilusões ópticas deste dicionário? A questão que agora se coloca é a mesma que há séculos perturba o universo humorístico. Na escola ensinaram-me que o nosso Gil Vicente, lá nos idos de mil quatrocentos e tais, servia-se do humor, da paródia, da maledicência, para dizer umas tantas verdades. Mas essas tantas verdades não são a verdade, nem almejam sê-lo. São apenas uma perspectiva possível sobre a verdade. Uma perspectiva que incomoda, por certo, mas não mais que uma perspectiva. Talvez por isso mesmo, ainda hoje, umas tantas caricaturas apoquentem chusmas imensas de almas puritanas, tão civilizadas quão macambúzias. Não tanto por dizerem verdades, mas precisamente por confrontarem viciosamente os vícios do mundo. Esta é a história da comédia e dos comediantes, esses que, segundo Aristóteles, andavam de aldeia em aldeia, «por não serem tolerados na cidade». É que a cidade, porque mais adestrada, sempre tolerou menos os particulares da injúria. Lá/Cá do campo, a malta grita e ninguém ouve. Gritam da pinga e, muito provavelmente, da possessão. Mas na cidade pressupõe-se que a repugnância seja outra. E aqui caberia novamente Aristóteles, ou alguém por ele, atirando o satírico, o cómico, para o domínio da imitação dos homens inferiores. O riso é inferior porque é do demónio. Logo, só a rir o demónio poderia instruir-nos. Fala o diabo: «RISO, n. Uma convulsão interior, que produz uma distorção da expressão facial e que é acompanhada por sons desarticulados. É contagioso e, embora intermitente, incurável» (p. 144). Mora dentro de nós, e logo sem cura possível, o linguarejar de Satã. Baudelaire analisou o fenómeno com perspicácia, num ensaio intitulado Da Essência do Riso (Íman, 2001). Ambrose Bierce, que esteve ao serviço do exército da união durante quatro anos, há-de ter provado, como só provam os homens que experimentam os absurdos da guerra, o travo mais humano do satanismo. Escreveu muitas histórias, sketches, epigramas. É destes que se fazem as entradas do Dicionário do Diabo: cínicas, reaccionárias, misóginas, e com aquele travo permanente de desencanto e desilusão, aquela ausência de optimismo fatal, que atrai hoje tanto os da esquerda como os da direita. Por todas estas razões, mais algumas, este livro parece-me essencial. Quem ficar descontente, sempre pode exorcizar o diabo que traz dentro de si... mandando-o às favas. Palavra do senhor!quarta-feira, 5 de abril de 2006
ELUCIDÁRIO DE YOUKALI
Elucidário de Youkali seguido de Ordem Alfabética, publicado em Janeiro do ano corrente pela Editorial Caminho, junta dois conjuntos de poemas brevíssimos de um poeta portuense cuja obra se tem dividido entre livros para crianças e os outros. Supostamente para adultos, este deslumbrante elucidário de João Pedro Mésseder (n. 1957), assim como o subsequente Ordem Alfabética, mostra-nos um poeta transformado em criança, ou seja, no seu devido lugar de criador absoluto de mundos imaginários. Só nesse lugar pode o poeta, julgo eu, exercer a sua suprema função: a reinvenção da linguagem a partir da reconstrução da palavra. Nos dois conjuntos de poemas aqui trazidos, esse trabalho é exercido de uma forma lúdica onde impressionam a precisão, a meticulosidade, bem ao jeito de alguma poesia oriental, a capacidade de síntese (muitos poemas possuem um único verso), a imaginação e uma graciosidade discursiva que dificilmente deixará de encantar mesmo o leitor mais exigente. Será talvez importante referir que essa capacidade de síntese consegue não resvalar num hermetismo tão metafórico quão facundo, apenas acessível a hermeneutas de doutoramento feito e aprovado com distinção. A parada aqui é distinta, podendo por vezes uma palavra aparecer transposta numa outra com a qual passa a estabelecer uma relação sinonímica facilmente reconhecível: «Blasfémia - Bofetada» (p. 20). Youkali, tal como aparece no poema de Roger Fernay transcrito no verso da capa e da contracapa deste elucidário de João Pedro Mésseder, «c’est le respect de tous les voeus échangés». Aquilo que se procura cambiar neste livro é o significado das palavras, buscando-se para isso outros sentidos construídos através de um jogo semântico com regras diversas. São novos significados que surdem de associações directas ou indirectas com os fonemas da palavra (re)construída, de conexões fonéticas mais ou menos evidentes, de brincadeiras sérias onde o que se depreende é um esforço hábil na desconstrução da palavra enquanto representação das coisas do mundo. Às vezes, o que parece estar em causa é apenas a distensão da linguagem poética: «Amar - Encher de água do mar / um coração vazio» (p. 15). Outras vezes, vislumbramos um humor marcado pela ironia política: «Crédito – Doença terminal / dos pobres» (p. 29). Mas é em Ordem Alfabética, conjunto que abre com três epígrafes de Luiza Neto Jorge, Octávio Paz e Roland Barthes, que a intenção subjacente a estes micropoemas é obviada. A citação de Barthes remete-nos para um dos mais fascinantes diálogos platónicos: Crátilo – Diálogo sobre a justeza dos nomes. Nesse diálogo, mantido entre Sócrates, Hermógenes e Crátilo, procura-se discutir a origem das palavras, se estas foram estabelecidas em conformidade com a natureza dos objectos ou se, por outro lado, resultam apenas de convenções. Ainda na fase inicial da investigação, quando interpelado por Hermógenes sobre a justeza natural dos nomes, Sócrates aconselha o seu interlocutor a «consultar Homero e os outros poetas». É essa crença na propriedade das palavras, na relação dos nomes com aquilo que nomeiam, que aqui é posta em causa. O que estes poemas de João Pedro Mésseder logram é fazer-nos acreditar no poder criativo da poesia, forma suprema do fazer da palavra. Estes poemas são o exercício mesmo desse fazer da palavra. E assim a palavra deixa de ser um absoluto em si, cristalizado nas definições dos dicionários, para poder passar a ser o interlocutor com o qual cada um constrói o mundo à sua volta e joga uma partida de xadrez.
Subscrever:
Comentários (Atom)