POEMA DO NOVO EGIPTO
Não trago incenso, pão ou
cerveja,
trago novos modos de preservar a alma
dos objectos, esmolas contadas para os teus filhos.
E tu ofereces-me a essência: um defeito na pedra,
destino por cumprir, chá, karkadeh, pepsi-cola,
pequenos crocodilos de cativeiro, os núbios.
Mais a sul, outros há que um
dia serão
mera atracção turística. Também eles servirão
chá e sorrisos rasgados para a fotografia.
Com olhos penetrantes, apagarão da história
as linhas mais sangrentas. Tal como as miragens
no deserto, é hoje o Egipto de ontem.
A descer o Nilo ao ritmo dos
remadores,
caem sombras de areia sobre os nossos olhos,
as margens desaparecem por completo,
o rio prolonga-se nas vidas que amamenta.
Nós somos os seus afluentes
e o deserto é a extensão das nossas vidas.
Trabalha-se o alabastro perto
da morte,
ganha-se ao fim do dia o inchaço das mãos.
Só o chá servido a horas justifica o adiamento.
Embora de nada sirva, sinto-me mais próximo
dos deuses a observar esse esforço
do que a descer ao fundo de um túmulo soberbo.
Perdido entre colunas
gigantescas, caminho
na direcção de um rosto desconhecido.
Também eu, quando morrer, quero os contornos
da pedra, quero ficar a olhar os grãos de areia
que se prostram a meus pés, quero ocupar as mãos
com as miragens do deserto. E quero tudo isso esquecer.
Henrique Manuel Bento Fialho,
in “Saudade – revista de poesia”, n.º 10, direcção de António José Queirós,
Associação Amarante Cultural, Edições do Tâmega, Junho de 2008, p. 28. Poemas
de Alfredo Ferreiro, Amadeu Baptista, Andityas Soares de Moura, António Cândido
Franco, António José Queirós, António Manuel Couto Viana, António Salvado,
António Vera, Artur Ferreira Coimbra, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de
Brito, Célia Moura, Cristina de Mello, Daniel Gonçalves, Elsa Seabra, Fernando
Botto Semedo, Fernando de Castro Branco, Fernando Esteves Pinto, Fernando Pinto
Ribeiro, Francisco Miguel de Moura, Hardi Filho, Henrique Manuel Bento Fialho,
Henrique Monteiro, Ildásio Tavares, Jesús Cobo, João Garção, João Rui de Sousa,
Joaquim Sustelo, José A. Damas, Juliana Miranda, Julião Bernardes, Luís Adriano
Carlos, Luís Amaro, Luís Filipe Pereira, Mafalda Chambel, Manuel Madeira, Márcia
Tude, Maria Natália Miranda, Maria do Sameiro Barroso, Nicolau Saião, Nuno
Travanca, Paulo Jorge Brito e Abreu, Pompeu Miguel Martins, Rodolfo Alonso, Rui
Almeida, Sérgio Pereira, Stella Alvarado, Susete Viegas, Ulisses Duarte, Vaza
Pinheiro, Victor Oliveira Mateus, Vítor-Luís Grilo, Vítor Oliveira Jorge, Xosé
Lois García.
trago novos modos de preservar a alma
dos objectos, esmolas contadas para os teus filhos.
E tu ofereces-me a essência: um defeito na pedra,
destino por cumprir, chá, karkadeh, pepsi-cola,
pequenos crocodilos de cativeiro, os núbios.
mera atracção turística. Também eles servirão
chá e sorrisos rasgados para a fotografia.
Com olhos penetrantes, apagarão da história
as linhas mais sangrentas. Tal como as miragens
no deserto, é hoje o Egipto de ontem.
caem sombras de areia sobre os nossos olhos,
as margens desaparecem por completo,
o rio prolonga-se nas vidas que amamenta.
Nós somos os seus afluentes
e o deserto é a extensão das nossas vidas.
ganha-se ao fim do dia o inchaço das mãos.
Só o chá servido a horas justifica o adiamento.
Embora de nada sirva, sinto-me mais próximo
dos deuses a observar esse esforço
do que a descer ao fundo de um túmulo soberbo.
na direcção de um rosto desconhecido.
Também eu, quando morrer, quero os contornos
da pedra, quero ficar a olhar os grãos de areia
que se prostram a meus pés, quero ocupar as mãos
com as miragens do deserto. E quero tudo isso esquecer.

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