segunda-feira, 25 de maio de 2009

ANATOMIA DA ERRÂNCIA

Na badana da primeira edição portuguesa de Anatomia da Errância (Quetzal, Junho de 2008) somos erradamente informados acerca da data de nascimento de Bruce Chatwin. A data correcta é 1940. Se o autor tivesse nascido em 1949, as memórias dos primeiros anos aludidas em alguns destes textos assumiriam um carácter ficcional distante da inclinação autobiográfica que os liga. Podemos contudo pensar no autor de Na Patagónia como uma existência para lá das fronteiras do real. Há vários pormenores na sua vida que nos inspiram a confiança de uma história bem urdida, de uma aventura existencial exemplar com contornos absolutamente extraordinários. Além disso, a sua obra é a de um incansável viajante com preocupações tão ficcionais quanto descritivas. Percebemos isso nos cinco capítulos que compõem este livro. O título sintetiza todo um programa, capta na perfeição o espírito inquieto de um viajante inevitavelmente transformado em teórico da viagem, conquanto se entenda aqui teórico como alguém que participa numa investigação que, ao fim e ao cabo, é a investigação de si próprio.

O horror do domicílio enfatizado nestas páginas é a base a partir da qual o autor procurará compreender a atitude nómada, o espírito aventureiro de povos à deriva, a peregrinação a caminho de uma liberdade conquistada em trânsito. Não é por isso de estranhar que o primeiro dos textos coligidos seja claramente autobiográfico, partindo de uma explicação etimológica do apelido Chatwin para culminar na declaração do nascimento de um escritor: «Uma tarde, no início dos anos 70, em Paris, fui falar com a arquitecta e designer Eileen Gray que, com noventa e três anos, achava normalíssimo trabalhar catorze horas por dia. Vivia na rue Bonaparte e tinha pendurado no salão um mapa da Patagónia, pintado por ela, a guache. / «Sempre lá quis ir», disse eu. «Também eu», acrescentou. «Vá lá por mim.» Fui. Mandei um telegrama ao Sunday Times: «Fui para a Patagónia.» Na mochila levava a Viagem à Arménia de Mandelstam e No Nosso Tempo de Hemingway» (pp. 26-27). Esta é apenas uma das muitas histórias que darão cor a uma extraordinária vida. Para trás tinham ficado as memórias de uma avó obcecada por ciganos, o vício em atlas, a leitura de Baudelaire: «La Grande Maladie: horreur du domicile.»

Mas repare-se como o início do escritor coincide com a atitude do viajante. O domicílio não será apenas o horror paralisante da escrita, ele é uma prisão que afasta o escritor da vida. A viagem física faz-se acompanhar de uma incansável viagem espiritual, resultando a escrita de uma deriva pelos lugares da experiência. O escritor é um andarilho. Para Chatwin não pode ser de outra maneira. As quatro histórias aqui reunidas exemplificam-no bem, repletas de nómadas africanos, cheiros, retratos exóticos, sensações, evocações de gestos, aventuras, personagens resultantes de um encontro inesperado, ao contrário de outras que mais não são do que encontros construídos, ansiados e ansiosos, arquitectados com a intenção de produzirem efeitos mais ou menos fantásticos, dificilmente tão intrigantes quanto o “rigor beduíno”. No capítulo intitulado «A Alternativa Nómada» percebemos sem grandes complicações que uma escrita destas apenas pode estipular uma ruptura com as cercanias civilizacionais que balizam a imensa maioria dos escritores do nosso tempo, confinados às paredes domiciliárias, sentindo o mundo através de um monitor, protegidos pelas muralhas da cidade. «Tenho a compulsão da partida e a compulsão do regresso – o instinto de retorno ao lar da ave migratória» (p. 100) – confessa Chatwin enquanto expõe o projecto para um livro nunca concretizado. Aposto, não sem risco, que toda a sua obra reunida é esse livro por concretizar, como por concretizar fica sempre o projecto do nómada, do errante, criando intuitivamente ao ritmo dos tambores e das cornetas que lhe põem os nervos a dançar num frenesi de experiências que recusa a mecânica redutora da vida urbana.

Nos dois últimos capítulos de Anatomia da Errância encontramos a veia crítica do viajante compulsivo. São abordados livros de Wilfred Thesiger sobre os nómadas do deserto, a utopia anarquista de Antonio Soto no Sul da Patagónia, uma biografia do escritor Robert Louis Stevenson, reduzido a um estatuto pedante e pretensioso, um livro de Konrad Lorenz, as vidas extravagantes de Axel Munthe, do barão Jacques Adelswärd-Fersen e de Curzio Malaparte. O volume encerra com um magnífico ensaio intitulado «A Moral das Coisas», onde Chatwin reflecte a relação das civilizações com a obra de arte falando do coleccionismo como a construção de um território. Mas o mais interessante é a percepção com que o leitor fica da construção de um outro território, um território sem fronteiras por onde a inquietação do conhecimento pode vogar sem destino predeterminado. Num tempo em que parece tão fácil a circulação das pessoas no mundo, torna-se doloroso verificar o ensimesmamento da generalidade da escrita que hoje se pratica. A vontade de ouvir o outro, de ir ao seu encontro, de o descobrir, foi substituída por uma necessidade doentia de se fazer escutar. O resultado é confrangedor: gente que passa a vida a falar consigo própria um pouco à semelhança do esquizofrénico que anda aqui pelo bairro e só sai de si próprio quando quer cravar um cigarro a alguém.

Escrito para o Rascunho.

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