Prefácio de Francisco Nunes Correia. Adelice da Silveira Barros, Aldyr Garcia Schlee, Alexandre Andrade, Alexandre Bonafim, Ana Costa Ribeiro, Ana cristina Alves, Ana Paula Cabral, Ana Zanatti, Andrea del Fuego, Antônio José de Moura, António Vilela, Aurea Domenech, Carlos Nejar, Catarina Fonseca, David Oscar Vaz, Diana Almeida, Dimíter Ángelov, Fernando Dacosta, Filipa Leal, Flávia Savary, Flávio Moreira da Costa, Guilherme Trindade, Henrique Levy, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Santos, Inês Vinagre, Irene Zaide, Jane Tutikian, João Aguiar, João de Mancelos, João Anzanello Carrascoza, João Luís Nabo, Jorge Reis-Sá, Jorge Vaz Nande, José Henrique Calazans, Liliana Silva Ribeiro, Luiz Ruffato, Marcelo Puglia, Margarida Vale de Gato, Maria Augusta Silva, Maria do Sameiro Barroso, Maria Lucília Meleiro, Maria Teresa Horta, Mariana Ianelli, Miguel Real, Moacyr Godoy Moreira, Moacyr Scliar, Monique Revillion Dinato, Olga Savary, Pedro Sena-Lino, Rita Taborda Duarte, Rogério Rola, Rosa Lobato Faria, Rui Zink, Rute Beirante, Sérgio Faraco, Teolinda Gersão, Tércia Montenegro, Teresa Ferreira de Almeida, Teresa Rita Lopes, Urbano Tavares Rodrigues, Victor Oliveira Mateus. Posfácio de Lauro Moreira. Organização de Celina Veiga de Oliveira e Victor Oliveira Mateus. Editorial Tágide.
O RIO LETES
Uma alma perdida vagueava junto às margens do rio Letes. Vagueava sem direcção, como qualquer coisa que vagueia, indagando-se sobre o local onde desaguaria aquele rio. Talvez pensasse ser esse local um lugar paradisíaco, um lugar de que lhe haviam falado na sua última encarnação. Pensava que a foz do rio do esquecimento só poderia ser um lugar paradisíaco, uma espécie de mundo prometido, vazio e silencioso, um lugar sem tempo, onde já nada poderia ferir as suas memórias cansadas. Olhou-se, rojando as vistas dos pés ao peito, temendo a nudez que o momento lhe impunha. Esta alma vadia sentia-se ainda escrava do medo e da solidão, infernos aos quais Deus a condenara desde o momento da criação. No entanto, começava a sentir-se desnudada por uma evidência: era cada vez mais de uma memória quase vazia. Digo quase vazia apenas por sentir-se ainda espinhada pela solidão, estorvada pela vergonha e agonizada pelo medo.
(...)
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