quarta-feira, 17 de junho de 2009

FIRMIN

Os bons livros ficam-nos muitas vezes na memória por pouco mais que uma frase, uma imagem, uma personagem. Ao terminarmos um livro podemos aferir da sua qualidade pensando no que ele nos ofereceu para uma melhor compreensão do passado e no que ele possa ter de exemplar para o futuro, mesmo que a matéria memorável fique armazenada de uma forma tão subliminar que por vezes se torne difícil distinguir o que de facto estava escrito daquilo que nós lemos. Os livros muito bons conseguem formar-nos o panorama, colocam-nos no centro de paisagens marcantes, atiram-nos para o interior de labirintos de ideias e de sentimentos diversos. Duvido que depois de ler Platero e Eu alguém possa olhar para um burro da mesma forma que olhava antes de ter lido o livro de Juan Ramón Jiménez. E quem pode continuar a ver nos porcos meros porcos depois de ter lido A Quinta dos Animais? FirminAdventures of a Metropolitan Lowlife no original – é um desses livros muito bons que guardaremos para sempre, com o qual apetece envelhecer pedindo conselhos a… uma ratazana.

A breve nota biográfica numa das badanas da edição portuguesa – Planeta, Janeiro de 2009 – deixou-nos expectantes. Sam Savage (n. 1940) é o tipo de pessoa com quem julgamos poder ter algo a aprender acerca da vida, algo que não passe exclusivamente pelo saber acumulado nas páginas dos livros. Nasceu na Carolina do Sul, doutorou-se em Filosofia, abandonou a vida académica, sobreviveu como mecânico de bicicletas, carpinteiro, pescador, entre outras actividades do género. O seu primeiro e, que eu saiba, único livro é precisamente este Firmin, a história da última ratazana de uma ninhada de 13 que uma progenitora alcoólica com apenas 12 mamilos deu ao mundo. Desde logo, fica-nos a ideia de uma história de sobrevivência. Nenhum moralismo bacoco a perturbar-nos a desconfiança. O franzino Firmin sobrevive, como a maioria dos mortais, à custa de sobras e de alguns milagres acidentais a que vulgarmente chamamos de sorte. Mas a sobrevivência deste rato com inclinações filosóficas não pode ser interpretada exclusivamente no plano material. Firmin é uma magnífica fábula da sobrevivência nos campos minados da vida metropolitana, mas de uma sobrevivência absoluta, material, moral, sentimental, humana.

Em termos de representações simbólicas, diria que toda a humanidade pode ser reduzida ao processo de destruição e «renovação» que envolve a Scollay Square. A decadência da Pembroke Books, livraria onde Firmin resolve fazer vida lendo tudo o que havia para ler, permite-nos intuir na existência desta admirável criatura velhas inquietações existenciais e sociais que aqui aparecem retratadas numa espécie de balança que faz equilibrar ironia e desespero. O desassossego de Sam Savage é o de todos aqueles que às tantas olham para a realidade e querem acreditar que o que estão ver não passa de ficção. «Se uma educação literária serve para alguma coisa, é para nos fornecer um sentido de fatalidade» (p. 41). Este sentido de fatalidade não impede o sonho, antes o torna necessário; este sentido de calamidade tornar-nos-á, certamente, mais ambivalentes, mas resulta numa incondicional revalorização da existência. O problema surge quando a necessidade do sonho parece impossível de satisfazer. Aí, o sentido de fatalidade torna-se fatal, o pavor que passamos a ter do mundo volta-se contra nós, transforma-se rapidamente num incontrolável pavor de nós próprios e afasta-nos dos espelhos – os outros? – como o diabo da cruz.

Firmin é uma ratazana obstinada, não desiste de uma relação de amizade com um ser humano. Conseguindo concretizar tal aspiração tão idiota, não despreza a consciência das limitações que tornam o facto numa pálida realização do que ambicionava. Afinal, para Jerry Magoon, o escritor marginal que adopta Firmin, este nunca passará de um animal engraçado. «O amor não correspondido é mau, mas o amor impossível de ser correspondido dá cabo de nós» (p. 64). Para lá das múltiplas referências, do tom culto que tinge a narrativa, para lá da ironia permanente e de uma implacável auto-depreciação que nos afecta amiúde como lanças imaginárias vindas do fundo dos nossos mais íntimos recalcamentos, a história de Firmin é não só a história de um náufrago sobrevivente mas também a história de um anjo da guarda, de um desses anjos da guarda que nos acompanham em profunda solidão e conseguem mudar a nossa vida sem alimentarem grandes fantasias quanto a amores impossíveis de ser correspondidos. A poesia deste Firmin é, de facto, para comer. Mas como quem alimenta os sonhos comendo a própria solidão.

Escrito para o Rascunho.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

ENTRE O VIVO, O NÃO-VIVO E O MORTO N.º 3


Entre o vivo, o não-vivo e o morto
n.º 3, Junho de 2009
direcção de Paulo Serra
Edição CEPiA (Centro de Estudos Performativos i Artísticos)


Knock On Wood, pp. 18-19

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A POTÊNCIA DE EXISTIR

Antes de mais, talvez convenha sublinhar a vitalidade da prática filosófica na actualidade. Pensadores como Peter Singer (n. 1946), Peter Sloterdijk (n. 1947), Slavoj Zizek (n. 1949), Michel Onfray (n. 1959), entre outros, têm conseguido, cada um à sua maneira, ressuscitar a dimensão polémica da filosofia, monstro durante demasiado tempo adormecido na cama reflexiva e abstraccionista que manteve os filósofos de costas voltadas para os problemas da vida concreta. As propostas são diversificadas e logram entusiasmar os leitores com uma linguagem já não tão fechada sobre si própria, mas preocupada com a urgência de uma inteligibilidade que, não simplificando a natureza complexa do pensamento, o torna acessível aos leitores menos predispostos para o hermetismo.
O exemplo de Michel Onfray é particularmente entusiasmante, atendendo ao facto do autor ser avesso a uma filosofia construída em cisão com a vida, ou seja, contrário a todo o sistema filosófico erigido no plano do ideal sem um acompanhamento concreto e existencial daquele que o constrói. «Nunca como hoje foi tão urgente uma filosofia do corpo existencial» (p. 68), diz; e acrescenta: «A prova do filósofo? A sua vida. Uma obra escrita sem a vida filosófica que a acompanha não vale a pena nem por um segundo» (p. 73). Aqui se nota a ruptura com os apologistas de uma separação das águas teórica e prática, como se uma pudesse justificar-se sem a outra. Quem estiver familiarizado com a obra de Onfray, constatará o recurso frequente ao exemplo pessoal, ao dado biográfico, à pequena história, até mesmo à anedota enquanto síntese teatral do pensamento e da teoria.
A Potência de Existir – Manifesto Hedonista (Campo da Comunicação, Fevereiro de 2009) abre precisamente com uma narrativa autobiográfica onde o filósofo francês dá conta da relação problemática mantida com a sua mãe e da experiência humilhante e opressora passada no orfanato de Giel. O exemplo dos antigos cínicos é levado à letra, mas liberto das impurezas de uma historiografia que pretendeu fixar a atitude cínica confundindo-a com mera ironia, anedota, provocação. Também Onfray desmonta a realidade denunciando-a, procurando mostrá-la para lá das fábulas que geralmente a disfarçam, desvelando os sonhos do idealismo enquanto aponta as fissuras do discurso oficial. Que pegue numa figura caluniada pela historiografia dominante, nomeadamente Epicuro, propondo uma contra-história da filosofia, apenas demonstra uma arguta consciência crítica cujo fim será a construção de um sistema hedonista.

O subtítulo deste livro não deixa margens para dúvidas. Trata-se de uma síntese do trabalho realizado noutras obras, algumas das quais à disposição do público português. Assim, nas várias partes que compõem este manifesto, o filósofo percorre as teses de uma moral estética anteriormente desenvolvida em A Escultura do Eu (Quarteto, Julho de 2003), a erótica solar explanada na Teoria do Corpo Amoroso (Temas e Debates, Setembro de 2001), o tratado de resistência e de insubmissão que já conhecíamos de A Política do Rebelde (Instituto Piaget, 1999) ou a física da metafísica levada a cabo no Tratado de Ateologia (Edições Asa, Setembro de 2007).
As sinopses são clarificadoras de um projecto assente numa crítica feroz à herança moral judaico-cristã. Reduz-se Deus a uma resposta às fraquezas humanas, gerada pelo medo do homem perante si próprio, o mesmo medo que o afastou do corpo, dos prazeres do corpo, sacrificando-o, adestrando-o a ponto de o castrar nas suas potencialidades e de o desviar do espanto concentrado nos postulados da alma. Realizado o diagnóstico, parte-se para o estabelecimento dos princípios que deverão sustentar uma ética dinâmica. O objectivo consiste em abulir a miséria sexual instalada pelo pensamento cristão e abrir caminho para uma libertinagem pós-moderna, inalienável de um contrato hedonista onde o «bom» e o «mau» surjam não de uma atitude impositiva mas de um diálogo permanente entre o «eu» e o «outro».

No hedonismo onfrayano a ética não é separável da erótica, faz-se em diálogo com a metafísica, à política corresponde uma estética, a estética resulta de uma epistemologia, isto é, todas as dimensões do pensamento estão interligadas por um só propósito: encontrar uma saída do niilismo actual, não estar morto durante a vida. A revalorização do corpo seria insustentável sem uma estética que não denunciasse as balelas da arte inconsistente, falsamente profunda, justificando-se permanentemente a partir dos pressupostos da intransmissibilidade e do indizível. Onfray defende uma repolitização da arte, que nada deve a uma arte política, mas sim à «introdução de um conteúdo capaz de produzir um agir comunicacional».
«O movimento para o nada foi defeituoso; aquele que nos afasta dele, restabelecendo os antigos valores, também o é. Nem o zen nem o Kitsch. O quê, então? O gosto pelo real e pela matéria do mundo, a vontade de imanência e do mundano, a paixão pela textura das coisas, pela suavidade dos materiais, pela coloração das substâncias» (p. 163-164). Contra a transcendência, pela imanência, a audácia de uma filosofia do corpo existencial, uma bioética libertária, uma política do prazer consciente das suas resistências e dos seus anti-corpos. Nada de utopias universalizantes. Irrealizável no mundo, uma filosofia assim pode concretizar-se enquanto guia prático na vida dos indivíduos que, lá está, conscientes de uma morte inevitável a enfrentem em vida com os dentes arreganhados, à mostra.

Escrito para o Rascunho.