quarta-feira, 17 de junho de 2009

FIRMIN

Os bons livros ficam-nos muitas vezes na memória por pouco mais que uma frase, uma imagem, uma personagem. Ao terminarmos um livro podemos aferir da sua qualidade pensando no que ele nos ofereceu para uma melhor compreensão do passado e no que ele possa ter de exemplar para o futuro, mesmo que a matéria memorável fique armazenada de uma forma tão subliminar que por vezes se torne difícil distinguir o que de facto estava escrito daquilo que nós lemos. Os livros muito bons conseguem formar-nos o panorama, colocam-nos no centro de paisagens marcantes, atiram-nos para o interior de labirintos de ideias e de sentimentos diversos. Duvido que depois de ler Platero e Eu alguém possa olhar para um burro da mesma forma que olhava antes de ter lido o livro de Juan Ramón Jiménez. E quem pode continuar a ver nos porcos meros porcos depois de ter lido A Quinta dos Animais? FirminAdventures of a Metropolitan Lowlife no original – é um desses livros muito bons que guardaremos para sempre, com o qual apetece envelhecer pedindo conselhos a… uma ratazana.

A breve nota biográfica numa das badanas da edição portuguesa – Planeta, Janeiro de 2009 – deixou-nos expectantes. Sam Savage (n. 1940) é o tipo de pessoa com quem julgamos poder ter algo a aprender acerca da vida, algo que não passe exclusivamente pelo saber acumulado nas páginas dos livros. Nasceu na Carolina do Sul, doutorou-se em Filosofia, abandonou a vida académica, sobreviveu como mecânico de bicicletas, carpinteiro, pescador, entre outras actividades do género. O seu primeiro e, que eu saiba, único livro é precisamente este Firmin, a história da última ratazana de uma ninhada de 13 que uma progenitora alcoólica com apenas 12 mamilos deu ao mundo. Desde logo, fica-nos a ideia de uma história de sobrevivência. Nenhum moralismo bacoco a perturbar-nos a desconfiança. O franzino Firmin sobrevive, como a maioria dos mortais, à custa de sobras e de alguns milagres acidentais a que vulgarmente chamamos de sorte. Mas a sobrevivência deste rato com inclinações filosóficas não pode ser interpretada exclusivamente no plano material. Firmin é uma magnífica fábula da sobrevivência nos campos minados da vida metropolitana, mas de uma sobrevivência absoluta, material, moral, sentimental, humana.

Em termos de representações simbólicas, diria que toda a humanidade pode ser reduzida ao processo de destruição e «renovação» que envolve a Scollay Square. A decadência da Pembroke Books, livraria onde Firmin resolve fazer vida lendo tudo o que havia para ler, permite-nos intuir na existência desta admirável criatura velhas inquietações existenciais e sociais que aqui aparecem retratadas numa espécie de balança que faz equilibrar ironia e desespero. O desassossego de Sam Savage é o de todos aqueles que às tantas olham para a realidade e querem acreditar que o que estão ver não passa de ficção. «Se uma educação literária serve para alguma coisa, é para nos fornecer um sentido de fatalidade» (p. 41). Este sentido de fatalidade não impede o sonho, antes o torna necessário; este sentido de calamidade tornar-nos-á, certamente, mais ambivalentes, mas resulta numa incondicional revalorização da existência. O problema surge quando a necessidade do sonho parece impossível de satisfazer. Aí, o sentido de fatalidade torna-se fatal, o pavor que passamos a ter do mundo volta-se contra nós, transforma-se rapidamente num incontrolável pavor de nós próprios e afasta-nos dos espelhos – os outros? – como o diabo da cruz.

Firmin é uma ratazana obstinada, não desiste de uma relação de amizade com um ser humano. Conseguindo concretizar tal aspiração tão idiota, não despreza a consciência das limitações que tornam o facto numa pálida realização do que ambicionava. Afinal, para Jerry Magoon, o escritor marginal que adopta Firmin, este nunca passará de um animal engraçado. «O amor não correspondido é mau, mas o amor impossível de ser correspondido dá cabo de nós» (p. 64). Para lá das múltiplas referências, do tom culto que tinge a narrativa, para lá da ironia permanente e de uma implacável auto-depreciação que nos afecta amiúde como lanças imaginárias vindas do fundo dos nossos mais íntimos recalcamentos, a história de Firmin é não só a história de um náufrago sobrevivente mas também a história de um anjo da guarda, de um desses anjos da guarda que nos acompanham em profunda solidão e conseguem mudar a nossa vida sem alimentarem grandes fantasias quanto a amores impossíveis de ser correspondidos. A poesia deste Firmin é, de facto, para comer. Mas como quem alimenta os sonhos comendo a própria solidão.

Escrito para o Rascunho.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

ENTRE O VIVO, O NÃO-VIVO E O MORTO N.º 3


Entre o vivo, o não-vivo e o morto
n.º 3, Junho de 2009
direcção de Paulo Serra
Edição CEPiA (Centro de Estudos Performativos i Artísticos)


Knock On Wood, pp. 18-19

quinta-feira, 4 de junho de 2009

APRESENTAÇÃO DE “DISPERSÃO – POESIA REUNIDA”, DE NUNO DEMPSTER

Não vislumbro grande diferença entre fazer poesia e ler poesia, pelo menos tanto quanto me é dado entender ambas as actividades. Não é raro ouvir-se dizer que o leitor faz o poema, mas também é verdade que o poema faz o leitor. Outra não houvesse, esta seria razão mais do que suficiente para justificar toda a leitura enquanto uma forma de escrita. Se ao pegar num livro eu ousar interpretá-lo, a minha interpretação resultará inevitavelmente num acto de escrita; se leio um poema, escrevo-o tanto quanto ele me lê a mim próprio. Há uma imagem que me acompanha desde a infância e que talvez possa servir para clarificar o que pretendo dizer. É a imagem de uma criança enrolada numa onda. A criança está na praia e pede para ir ao mar. O pai acompanha-o e, reparando que o mar está agitado, aconselha o filho a agarrar-se à corda com as bóias. Talvez por mera distracção, audácia ou outra coisa qualquer, a criança larga a corda por momentos e acaba por ser arrastada por uma onda. Fica por momentos embrulhada num remoinho de espuma e de areia até que consegue finalmente reerguer-se, retomar a respiração, e regressar a terra firme. Também o poeta desrespeita a vigilância paterna, larga a corda e mergulha, mais ou menos inadvertidamente, nessa explosão emocional que é a poesia. Alguns por lá ficam, para sempre arrastados pela força das marés; outros conseguem erguer-se e regressar a terra firme, para não mais quererem saber do mar ou simplesmente para poderem observar com uma certa distância uma experiência que pretenderão ou não voltar a ter. Assim o leitor de poesia, arrastado pela força do que lê, embrulhado nessa explosão de ritmos, imagens, metáforas, tons, misteriosas conjugações vocabulares que resultam em poema.

O livro de estreia de Nuno Dempster pede-nos que larguemos a corda, convida-nos a um mergulho arriscado, sem bóia de salvação, livre de todos os preconceitos e das ideias feitas que geralmente orientam os guardas da produção literária portuguesa. Por mim, é esta uma das grandes atracções da poesia: sugerir-nos o mergulho quando a bandeira está vermelha. Digo isto, desde logo, por estarmos a falar de um livro de estreia com quase 300 páginas. Não faço ideia se se trata de facto inédito, mas sei não ser fenómeno frequente. A verdade é que Dempster estreia-se com aquele tipo de livro mais usual em poetas a meio ou no fim de um vasto percurso ou, se quiserem, mais usual nos que buscam a consagração como se esta pudesse ser medida a peso. Reunir a obra à partida pode ser um gesto tão ousado quão imprudente, algo que, para este que vos escreve, assume em ambas as hipóteses uma configuração de mérito. É verdade que já tínhamos lido alguns destes poemas, na sua primordial aparição, numa singela antologia intitulada Quatro Poetas da Net (Edições Sete Sílabas, Setembro de 2002). Isto leva-nos a uma segunda nota não de somenos importância: a grande maioria da produção poética deste autor foi aparecendo primeiramente na internet. Não sei se isto faz do poeta um poeta da “net”, assim como Han-Shang não terá sido um poeta do bambu por ter escrito nos troncos dessa planta muitos dos seus poemas. Penso que o dado em si tem relevância por fazer deste autor um autor do seu tempo, que é não somente o tempo da juventude mas antes o tempo da vida inteira. Ora, chegamos ao facto último e derradeiro que me apraz constatar: estamos perante uma estreia em livro de um autor com 65 anos de idade. A invulgaridade da situação obriga-me, de facto, a largar a corda dos preconceitos e arrasta-me para a deriva dos fenómenos poéticos.

Explico-me. Na mesma geração biográfica de Nuno Dempster, que é a geração de poetas tais como João Miguel Fernandes Jorge (n. 1943) e Manuel António Pina (n. 1943), António Franco Alexandre (n. 1944) e Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945), entre tantos outros, encontramos estreias que os críticos sérios costumam designar de tardias. Entre elas, a mais evidente será a do poeta Manuel Gusmão (n. 1945), o qual publicou o seu primeiro poemário aos 45 anos de idade. A idade de estreia de um poeta não é determinante, mas assume algum relevo quando passa a estar em causa a presunção de conexões geracionais que sirvam para catalogar estupidamente esta ou aquela poesias como se a poesia digna de ser tratada enquanto tal não resultasse apenas da voz sem idade nem geração de quem a pratica. É verdade que o tempo vai passando e com o tempo técnicas e tácticas vão desaparecendo e ressuscitando, é verdade que hoje é impossível escrever-se como ontem porque ontem já era o que hoje não é, verdade também se reconhece a quem trata a língua em que escreve como um organismo vivo e a quem vê na poesia essa forma de expressão de uma vibração interior, de uma respiração tão independente do tempo em que se vive como da consciência do tempo que não se viveu. Por isso mesmo julgo disparatada toda a intenção de arrumar a criação poética tendo em conta balizas geracionais como se dentro de uma mesma geração a variedade de formas não pusesse em causa qualquer catalogação e recusasse igualmente qualquer tipo de agregação redutora da liberdade individual.

Nuno Dempster (n. 1944) estreia-se em livro aos 65 anos com uma obra onde reúne, tanto quanto nos é dado saber, pelo menos 10 anos de criação poética. Permitam-me pois que perca algum tempo com uma questão ociosa que interessará apenas a adeptos da preguiça tais como eu. A crítica especializada, ou seja, os funcionários da ordem poética, utilizam geralmente a expressão “novíssimos” para designarem os autores mais novos. Como estamos a falar de poetas, novíssimos seriam os poetas muito novos. Porém ignoramos se classificar de muito novo um poeta remete para a idade do autor, para a data de publicação da primeira obra ou para aspectos concernentes à qualidade da mesma. Se for para a idade do autor, então novíssimo será o autor que ande pela casa dos 20 anos de idade, mais ou menos; por outro lado, se a intenção é remeter apenas para a data de publicação da primeira obra, entendida aqui no sentido de livro autónomo, novíssimo será o autor de uma obra muito recente independentemente da idade do seu autor - Cesário Verde (n. 1855 – m. 1886) e Reinaldo Ferreira (n. 1922 – m. 1959), por exemplo, foram autores novíssimos quando já estavam mortos, dado os seus primeiros livros terem sido publicados postumamente; por fim, questões de qualidade, por demais discutíveis, obrigam-nos a supor que novíssima seria toda a poesia que apresentasse algo de novo, sendo que algo de novo é quase sempre, como facilmente constataremos, um diálogo com o velho (e o que é novo hoje é velho amanhã mas amanhã não deixará de ser novo se, como o vinho do Porto, for sendo apurado com o tempo). A verdade é que existem autores a escrever para lá do tempo em que vivem, não sendo menos verdade também existirem outros que escrevem em tenra idade o que logo à partida já tresanda a mofo. Basicamente, o conceito de novíssimo é apenas um modo algo sofisticado de dizer “malta nova”.

Falar de novíssimos resulta numa tentativa de actualização do que, pelos vistos, envelhece, ou, se preferirem, numa renovação do que, pelos vistos, se satura – a poesia! Como em tudo, haverá poesia que envelhece mal e outra que envelhece bem. Resulta também esta obsessão pelos novíssimos numa legitimação de alguns nomes, sempre em detrimento de outros, como é óbvio, que começam a almejar o futuro sem sequer terem conquistado algum passado. Quem os legitima? Geralmente aqueles que se pretendem ver legitimados pelos novíssimos. Pessoalmente, e sem qualquer ponta de ironia, considero a expressão vazia e inútil, típica de um facilitismo muito conveniente ao mundo civilizado dos poetas que tentam carreira na estafada confraria da literatice. «Tão perigoso como o simplismo esquemático, que arruma as individualidades em grupos aparentes, é a tendência para ver, entre elas, inúmeras conexões que não existem de facto, ou existem num plano demasiado superficial para que interessem a uma compreensão mais profunda das obras, dos acontecimentos e das personalidades», ensinou Jorge de Sena. Prefiro aqueles que não procuram nada senão encontrar-se a si próprios num mundo que a todo o momento nos tenta transformar em algo que não somos. Rejeito que Nuno Dempster possa ser um novíssimo, não por se estrear agora com os seus muito bem tratados 65 anos, mas porque isso me obrigaria a considerar Pessoa um velhíssimo e Camões uma coisa ressequida, miragem, poeira no deserto do esquecimento. Julgo já ter lido o suficiente para saber de estreias ditas tardias que ficam a dever-se apenas a uma maior auto-exigência do autor, dificuldades de publicação, ou simplesmente porque uma voz existiu antes do tempo estar preparado para a ouvir… O mundo sempre foi ingrato em vida para aqueles que o procuraram viver desprevenidos da vigilância paterna e da segurança das bóias.

Dispersão – Poesia Reunida tem a indelicadeza de viver o mundo sem buscar louvores nem legitimações cretinas. O título, tomado de empréstimo ao poeta Mário de Sá-Carneiro – citado em epígrafe, como tantos outros com os quais Nuno Dempster não se furta ao diálogo – pode ser entendido, numa acepção mais directa, enquanto reunião de poemas dispersos, ou no sentido menos óbvio de alguém que a determinada altura da vida ousou o tal mergulho na anarquia do poema, um mergulho que nos permite sentir, através de um experiência radical de liberdade, a fragilidade absurda da existência que comummente levamos. Sublinho, no entanto, a exigência e o cuidado colocados na organização desta “dispersão”, distribuindo por sete capítulos, chamemos-lhes capítulos, poemas que podem ser separados na sua génese temática, sem que deixem de reclamar uma unidade poética e mesmo filosófica muito próprias. É nessa unidade inquieta e reflexiva que mergulho enquanto leitor, na esperança de poder entender melhor a dispersão que, no fundo, compõe toda e qualquer unidade. Aí embrulhado, descubro uma poesia ligada aos lugares de passagem, uma poesia em trânsito por vias de circulação que nos transportam para sítios mais ou menos remotos, mormente concentrada nos berços de uma Europa decadente. Grécia e Roma, a Península Ibérica, mas não só, são cenários actuais que permitem uma deriva histórica apenas possível a quem faz da poesia um testemunho vivo da existência, mas um testemunho consciente de que nenhum “hoje” pode ser devidamente entendido sem um diálogo esforçado com o que nos é possível saber acerca de “ontem”.

A interpelação da actualidade não é exercida sob o prisma sentimental e a lamúria recorrentes que lamentan supostos paraísos perdidos. Recusa-se a saudade, ainda que muitas vezes não se evite a nostalgia. Mas essa nostalgia que não se evita é precisamente a dos momentos registados pela memória por neles encontrar aquilo que os torna diferentes de outros momentos. O poema surge então como um testemunho de um momento tornado distinto por nele se vislumbrar algo que transcende o tempo e o espaço, ou seja, por nele se vislumbrar poesia. “Consequência do lugar”, certamente, mas nenhuma subserviência ao lugar, pois o lugar do poema é apenas a terra onde a semente é lançada para aí as raízes poderem segurar o que mais alto rebenta: os frutos. Ora, seria displicente julgar que um poema intitulado Foz do Douro fosse apenas e tão-somente uma espécie de evocação sentimental desse lugar. Rapidamente o poema se transforma na expressão de um não-lugar, de um sentimento de exílio e de não pertença, no fundo, pertença apenas a um lugar de confluências que é esse lugar onde a doçura encontra o sal. A dúvida, o tédio quotidiano, o “spleen” que tinge muitas destas dimanações, são várias vezes interrompidos pelo acidente, pelas circunstâncias, pelo inesperado. Há um fascínio na poesia de Nuno Dempster pelos lugares e pelos acidentes que marcam os lugares na memória, pelo espanto provocado por esses pequenos e inesperados fenómenos que acabam por pedir ao poeta o seu testemunho em forma de poema. O canto de uma cotovia, o inusitado silêncio numa estação de serviço, um dentista na Praça Djmaa El Fnaa, em Marraquexe, feéricas lembranças das avenidas de Madrid, vários ecos do mundo, uma libelinha, uma gaivota a devorar o lixo na praia, serão acidentes consequentes de um lugar sobre o qual se está não simplesmente para se estar mas com o sentido crítico, mais ou menos desgostoso, de quem não consegue viver sem pôr em causa o tempo em que vive.

Lembranças e memórias pessoais misturam-se com o imaginário outorgado por uma historiografia mais ou menos dominante, sem que o poema resvale no típico confessionalismo excessivo e ensimesmado que mancha muita da poesia hoje publicada. Quando o tema parece ser o amor, mais uma vez o sentimento de exílio se intromete e a consciência da inexistência de paraísos, assim como da memória enquanto ficção, falam mais alto do que qualquer desejo de evocar paixões assolapadas. A experiência do amor confunde-se com a experiência da angústia, talvez a experiência da perda e da inexistência de qualquer salvação. O poema vibra essa dor, o leitor respira essa vibração, desta relação retiramos, não sem ironia, uma excelente lição: «às vezes o amor / é uma coisa estúpida / e, vivido, acautela-nos». Por outro lado, quando o tema aparenta ser a voragem do tempo, a solidão surge-nos como a única experiência poética possível. Volto a citar Jorge de Sena, agora numa célebre Carta ao jovem poeta: «A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa». Podia o jovem poeta ser este autor que agora lemos, perdido entre sucata velha a apodrecer em sujos descampados, perdido nas ruas cruzadas onde a vida se compra e vende, perdido no cenário devoluto e devastado de uma qualquer cidade, simplesmente perdido no tráfego ou no centro urbano onde os pardais parecem ratos com asas, perdido da esperança, achado refém da vida urbana onde sem nos salvar a poesia nos detém. Que o tom elegíaco ou quase elegíaco não nos atemorize, haverá uma anti-elegia à nossa espera no dia do juízo final.

Chegados a este ponto, penso ter ficado claro que Nuno Dempster é um poeta do exílio. Não só por ser um poeta, digamos assim, sem geração, mas por tomar para si uma certa distância do seu tempo, que acaba por ser o nosso tempo, para melhor poder testemunhá-lo. Julgo que também não restarão dúvidas quanto à seriedade desta empresa, nomeadamente tendo em conta o cuidado na organização do volume, o esmero colocado na sua publicação e a capacidade de, partindo da experiência pessoal, escrever para lá de si próprio, isto é, escrever tendo também em vista o outro, enjeitando o discurso hermético que torna demasiado fácil a vida de muitos e eloquentes poetas da nossa praça. Espero, por fim, ter sido suficientemente elucidativo quanto à ideia que me ficou desta poesia como uma poesia que arrisca reflectir o mundo mais do que meramente espelhá-lo, uma poesia que parte dos acidentes enquanto motivo de reflexão e encontra na memória um extenso material de confrontação. Quero, por fim, salientar um aspecto que talvez não seja dos mais evidentes nesta poética. Refiro-me a um pendor que dizemos clássico por dificilmente o reconhecermos nos demais versejadores da actualidade. Esse pendor clássico, não classicista, faz-se mostrar mormente na construção de uma cosmogonia poética muito própria. Leiam-se atentamente as duas sequências deste livro intituladas Génese e Inventário. Se na primeira nos é oferecida uma cativante construção do mundo, na segunda o mundo aparece resumido na construção do próprio sujeito poético. Nos dois casos procura dizer-se o indizível, pretende-se realizado o irrealizável, pressente-se um poeta enrolado na força dessa maré que é o tempo, negando o positivismo lógico na exacta medida em que afirma a expressão poética como a única capaz de captar e de realizar o mínimo realizável desse tudo que se esconde atrás de tudo. Porque um homem não é apenas o que dele se nos mostra nem o mundo é apenas o que dele conseguimos dizer, mesmo que a poesia seja, em última análise, a consciência deste eterno paradoxo: nada se resume ao que de si possa ser posto num poema porque o poema será sempre tanto a interpretação que dele fazemos como aquilo que ele faz de nós, assim como o mundo será sempre aquilo que o poema faz dele e o poema não resulta senão do mundo em que foi inscrito.

A POTÊNCIA DE EXISTIR

Antes de mais, talvez convenha sublinhar a vitalidade da prática filosófica na actualidade. Pensadores como Peter Singer (n. 1946), Peter Sloterdijk (n. 1947), Slavoj Zizek (n. 1949), Michel Onfray (n. 1959), entre outros, têm conseguido, cada um à sua maneira, ressuscitar a dimensão polémica da filosofia, monstro durante demasiado tempo adormecido na cama reflexiva e abstraccionista que manteve os filósofos de costas voltadas para os problemas da vida concreta. As propostas são diversificadas e logram entusiasmar os leitores com uma linguagem já não tão fechada sobre si própria, mas preocupada com a urgência de uma inteligibilidade que, não simplificando a natureza complexa do pensamento, o torna acessível aos leitores menos predispostos para o hermetismo.
O exemplo de Michel Onfray é particularmente entusiasmante, atendendo ao facto do autor ser avesso a uma filosofia construída em cisão com a vida, ou seja, contrário a todo o sistema filosófico erigido no plano do ideal sem um acompanhamento concreto e existencial daquele que o constrói. «Nunca como hoje foi tão urgente uma filosofia do corpo existencial» (p. 68), diz; e acrescenta: «A prova do filósofo? A sua vida. Uma obra escrita sem a vida filosófica que a acompanha não vale a pena nem por um segundo» (p. 73). Aqui se nota a ruptura com os apologistas de uma separação das águas teórica e prática, como se uma pudesse justificar-se sem a outra. Quem estiver familiarizado com a obra de Onfray, constatará o recurso frequente ao exemplo pessoal, ao dado biográfico, à pequena história, até mesmo à anedota enquanto síntese teatral do pensamento e da teoria.
A Potência de Existir – Manifesto Hedonista (Campo da Comunicação, Fevereiro de 2009) abre precisamente com uma narrativa autobiográfica onde o filósofo francês dá conta da relação problemática mantida com a sua mãe e da experiência humilhante e opressora passada no orfanato de Giel. O exemplo dos antigos cínicos é levado à letra, mas liberto das impurezas de uma historiografia que pretendeu fixar a atitude cínica confundindo-a com mera ironia, anedota, provocação. Também Onfray desmonta a realidade denunciando-a, procurando mostrá-la para lá das fábulas que geralmente a disfarçam, desvelando os sonhos do idealismo enquanto aponta as fissuras do discurso oficial. Que pegue numa figura caluniada pela historiografia dominante, nomeadamente Epicuro, propondo uma contra-história da filosofia, apenas demonstra uma arguta consciência crítica cujo fim será a construção de um sistema hedonista.

O subtítulo deste livro não deixa margens para dúvidas. Trata-se de uma síntese do trabalho realizado noutras obras, algumas das quais à disposição do público português. Assim, nas várias partes que compõem este manifesto, o filósofo percorre as teses de uma moral estética anteriormente desenvolvida em A Escultura do Eu (Quarteto, Julho de 2003), a erótica solar explanada na Teoria do Corpo Amoroso (Temas e Debates, Setembro de 2001), o tratado de resistência e de insubmissão que já conhecíamos de A Política do Rebelde (Instituto Piaget, 1999) ou a física da metafísica levada a cabo no Tratado de Ateologia (Edições Asa, Setembro de 2007).
As sinopses são clarificadoras de um projecto assente numa crítica feroz à herança moral judaico-cristã. Reduz-se Deus a uma resposta às fraquezas humanas, gerada pelo medo do homem perante si próprio, o mesmo medo que o afastou do corpo, dos prazeres do corpo, sacrificando-o, adestrando-o a ponto de o castrar nas suas potencialidades e de o desviar do espanto concentrado nos postulados da alma. Realizado o diagnóstico, parte-se para o estabelecimento dos princípios que deverão sustentar uma ética dinâmica. O objectivo consiste em abulir a miséria sexual instalada pelo pensamento cristão e abrir caminho para uma libertinagem pós-moderna, inalienável de um contrato hedonista onde o «bom» e o «mau» surjam não de uma atitude impositiva mas de um diálogo permanente entre o «eu» e o «outro».

No hedonismo onfrayano a ética não é separável da erótica, faz-se em diálogo com a metafísica, à política corresponde uma estética, a estética resulta de uma epistemologia, isto é, todas as dimensões do pensamento estão interligadas por um só propósito: encontrar uma saída do niilismo actual, não estar morto durante a vida. A revalorização do corpo seria insustentável sem uma estética que não denunciasse as balelas da arte inconsistente, falsamente profunda, justificando-se permanentemente a partir dos pressupostos da intransmissibilidade e do indizível. Onfray defende uma repolitização da arte, que nada deve a uma arte política, mas sim à «introdução de um conteúdo capaz de produzir um agir comunicacional».
«O movimento para o nada foi defeituoso; aquele que nos afasta dele, restabelecendo os antigos valores, também o é. Nem o zen nem o Kitsch. O quê, então? O gosto pelo real e pela matéria do mundo, a vontade de imanência e do mundano, a paixão pela textura das coisas, pela suavidade dos materiais, pela coloração das substâncias» (p. 163-164). Contra a transcendência, pela imanência, a audácia de uma filosofia do corpo existencial, uma bioética libertária, uma política do prazer consciente das suas resistências e dos seus anti-corpos. Nada de utopias universalizantes. Irrealizável no mundo, uma filosofia assim pode concretizar-se enquanto guia prático na vida dos indivíduos que, lá está, conscientes de uma morte inevitável a enfrentem em vida com os dentes arreganhados, à mostra.

Escrito para o Rascunho.