sábado, 7 de agosto de 2010

Uma concha de Rui Pires Cabral apanhada na Praia da Bordeira




«As folhas dos dias estavam em branco.»

Em Agosto havia
tempo e vagar. Obras
paradas, cães sem coleira
e um vizinho sentado à janela
entre cortinas de mofo.
Hang on
sleepy town. Tudo adiado.

Sobrávamos nós, os conspiradores,
murados no terraço pela sombra
das montanhas; sobravam
também, toda a tarde,
as luzidias ilhas de vinil
em rotação –

e enquanto o espinho
de diamante as percorria,
víamos por vezes
acender-se na penumbra
a cidade de onde nos tinham
degredado desde sempre

e para sempre, tão forte
era o apelo da estranha língua
nativa: ruas sem retorno, negras
escadarias, túneis que levavam,
madrugada dentro, aos enredos
do futuro –

por favor, por favor,
que tudo comece. Num silêncio
sem paz nem sossego
ficávamos depois abandonados.
E esses foram, já se sabe,
os melhores dias.



Rui Pires Cabral, in Oráculos de Cabeceira, com ilustrações de Daniela Gomes, Averno, Junho de 2009, pp. 16-17.

6 comentários:

Anónimo disse...

Este poema é SOBERBO!

Excelente o vosso bom gosto! Gosto!

João Miguel Henriques disse...

Anda muito boa a safra de conchas. Cá as vou lendo, longe da praia. Um abraço.

hmbf disse...

Hoje está mau dia para a praia. Pode ser que se arranje uma travessa de conchas.

ParadoXos disse...

como todos os poemas deveriam ser!!


abraços

fallorca disse...

«Num silêncio
sem paz nem sossego
ficávamos depois abandonados.
E esses foram, já se sabe,
os melhores dias.»
Que não te faltem os teus:)

hmbf disse...

Seja.

(a beber um branco à saúde dos amigos)